TESTEMUNHOS

Transtorno esquizoafetivo

"Se aos meus 15 anos me lessem a sina e dissessem que ia ter uma doença mental, eu não acreditaria e pedia o dinheiro de volta! Sempre fui uma pessoa calma, focada nos estudos e com imensas atividades e amigos: todos os ingredientes da felicidade. Aos 17 anos, comecei por ter problemas de sono, dormia apenas 2 ou 3 horas por dia e andava de rastos, não me conseguia concentrar nas aulas e o meu rendimento baixou bastante, o que me causava enorme frustração e ansiedade. Acabei por mudar de escola pensando que, ao começar do 0 acabava com todos os problemas. Claro que não, uma vez que estava deprimida não interessava o lugar, não podia fugir de mim mesma. Foi aumentando e aumentando até que não conseguia sair da cama e enfrentar um novo dia (cheguei até a dormir literalmente um fim-de-semana inteiro). Foi aí que me conduziram à psiquiatria. No início não tinha fé de que resultasse, com tanta negatividade que me impossibilitava até de pensar num futuro para mim e me empurrava para ideias suicidas. Foram os antidepressivos que me salvaram (e que me continuam a salvar, juntamente com psicoterapia), fui recuperando a esperança aos poucos, mas sempre com algumas recaídas. Mais tarde percebi que algo de errado se passava: comecei a ter ondas de felicidade enormes, delírios de grandeza em que acreditava que podia mesmo mudar o mundo, quase não precisava de dormir, estava super criativa e o meu coração batia com grande velocidade. Apesar poder parecer positivo, era exaustivo. Após algum tempo fui diagnosticada com transtorno bipolar. Mas não acaba aqui. Comecei a sentir-me vigiada e perseguida mesmo quando não havia ninguém na rua ou quando estava em casa. Havia sinais que me alertavam para isso: uma música, promoções nos produtos que ia comprar e tantos outros ridículos. Por vezes via rostos no meu quarto, vozes e até sensações, como de chuva nas mãos. Tudo isto levou a mais um diagnóstico: transtorno esquizoafetivo."
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"Outra sensação recorrente que tenho é de solidão. Sinto-me sozinha mesmo não estando, por vezes tinha um vazio tão grande ou uma dor emocional tao intensa que a solução parecia variar entre magoar-me ou suicidar-me pelo que tenho algumas cicatrizes no corpo e fui internada devido ao excesso de comprimidos. Hoje estou muito mais estável e sei lidar muito melhor com as minhas emoções. No fundo o meu sucesso em manter-me viva é de 100% e pretendo manter esse recorde! Penso até que o meu próprio curso (Psicologia) me ajuda a compreender a mim própria. Apesar de tudo, tenho a noção de que sou sortuda ao ter uma família que me apoia imenso e o melhor acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Sobre estes tenho noção de que vou precisar a vida inteira e não tenho vergonha disso!"
BP, 🚺, 21
Estudante de Psicologia

Depressão major e distimia

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"Lembro-me de ter 7 anos, me olhar ao espelho e me achar feia, gorda e nojenta. Atingir a puberdade não ajudou: odiava-me. Durante o secundário passei pelo que se chama de distimia, o que, muito mal explicadinho significa uma depressão que te permite continuar funcional: conseguia estudar e ter as notas que me permitiram entrar em medicina. Vir da terra para Lisboa não correu bem: durante o primeiro semestre os meus sintomas depressivos agravaram-se: insónias constantes, falta de concentração, atenção e memória, ataques de pânico frequentes, crises de choro dia sim dia não. Tenho a sorte de ter uma família normal e amigos incríveis, desde sempre. E o primeiro semestre trouxe-me memórias muito felizes e amigos que vou levar para a vida. Mas estes fatores não significam a imunidade contra doenças mentais) Chegou o 1o exame de sempre na faculdade: a oral de anatomia, para a qual não estava nada bem preparada e, muito menos, habituada a falhar redondamente diante de um professor. Chumbar neste exame foi a gota de água que me fez ir ao fundo. Recusei-me a voltar para Lisboa, passava os dias deitada, queria morrer. Não me queria matar, porque não seria justo que a minha família pagasse pelas consequências do fracasso que eu era como pessoa. Era absolutamente nojenta e repugnante aos meus próprios olhos. E o motivo não era o chumbo; o chumbo era apenas uma confirmação da merda completa que eu era. Os meus pais levaram-me a um psiquiatra que me diagnosticou com depressão. Ao ouvir ‘tu tens uma depressão. Tens de parar, descansar e tratar de ti’ deixou-me aliviada: alguém me ia ajudar. Comecei a tomar escitalopram (antidepressivo). As semanas e meses que se seguiram também não foram fáceis porque o fármaco demora a fazer efeito. Voltei à faculdade e passei num exame no segundo semestre (um dos efeitos secundários do medicamento é a hipersónia e eu dormia sem exagero 15-18h por dia, quando não era mais, por isso não estudava grande coisa). Passei de querer morrer a desejar não ter nascido, a tolerar e aceitar existir. Passei de me odiar a me tolerar. Descobri coisas que me deixavam feliz (voluntariado, fazer teatro, por exemplo). Passaram-se 6 anos e estou no 6°ano..."
FP, 🚺, 25
Estudante de Medicina

Ansiedade

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"Não há solução enquanto não descobrires o problema. Dizem que a forma como chegamos ao mundo, determina a maneira como lidamos com a vida. Não sei se é verdade ou mentira, mas todas as minhas saídas para ambientes desconhecidos foram realizadas a fórceps. Isso posso garantir. Com o tempo fui percebendo que só me sentia mal enquanto não dominava o ambiente, por isso, construí uma persona extrovertida que “chega chegando”, sem medos ou hesitações. É uma versão de mim em momentos de conforto, que trago para palco quando não conheço o ambiente. Nunca vi nisto um problema, continuo sem ver. Aliás, acho que é este bichinho, que me faz ter receio do mundo, que me empurra a estudá-lo e a estudar-me. Acho que é toda esta adrenalina interna que me coloca em movimento, a querer ser mais e melhor. Acho que é o medo que não me permite parar e a impaciência que me faz ser tão inquieta. Nunca liguei as estes “traços de personalidade” - lidei como sabia e transformei-os em forças, reconhecendo as minhas limitações. Aos meus fantasmas internos chamava “mariquices” e talvez continuem a ser - com ou sem diagnóstico: sei que as minhas neuras são neuras e estamos bem juntas. Não tenho problema com o que me torna fraca, porque é isso que prova o quão forte sou. Percebi o que se passava comigo quando deixei de viver para sobreviver, quando os medos ganharam tamanha força que deixei de conseguir conduzir, que tudo e nada me fazia entrar em pânico e que nada e tudo me deixava sem ar. Mas, foi nesta tamanha confusão que encontrei o problema e o desfiz numa única solução: “a vida é feita de opções” - e, se a vida é feita de opções, a escolha é minha! Se o meu cérebro não me destrói, quem o fará? Exacto. Ninguém. O que me podia travar é exactamente o que me torna imparável! Por isso, de coração, digo-te: assume o lado da história que te empodera e usa o que te enfraquece como combustível da tua melhor versão - aquela que não nasce contigo, mas que pode ser desenvolvida por ti! 💛"
AnnieWay, 25
Empreendedora

Doença genética e saúde mental

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"Chamo-me Filipa Alexandra Ferreira, tenho 29 anos e sou engenheira civil. Nasci com osteogénese imperfeita, a doença dos ossos de vidro/cristal e ao longo da minha vida já fiz largas centenas de fraturas. Acredito que na vida tu podes escolher ouvir a voz negativa que te leva à tristeza, decepção e desistir, ou ouvires a voz positiva que te leva a lutar, a não desistir e à superação. E acredito justamente que no dia em que os médicos disseram aos meus pais para me levarem para casa para morrer, eles ouviram a voz positiva e que a partir desse dia se começou a escrever a minha história de superação. Já passei por muita coisa, quer física quer mental, mas desistir nunca foi a opção e precisamente por ter passado tudo aquilo que passei tenho a bagagem que tenho hoje, carregada de cicatrizes que me lembram sempre quem sou e para onde quero ir, guiada pela voz positiva. Para lerem mais sobre mim e sobre as minhas aventuras é seguirem-me pelo instagram ou pelo Facebook."
Filipa Alexandra
Engenheira civil e criadora de conteúdos digitais

Dor crónica e saúde mental

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"Há cerca de 10 anos tive um acidente doméstico que resultou numa rotura muscular e numa lesão de um nervo periférico. Dois exames confirmaram a lesão. Mas como demorou algum tempo até a descobrir que tinha sido tão grave a dor acabou por se instalar. E, sei agora, que se uma dor não for atempadamente tratada resulta em crónica e é mais difícil de controlar. Infelizmente, os nossos profissionais de saúde não estão despertos para ouvir quando alguém lhes diz que tem muita dor! Infelizmente, existe uma questão cultural "do aguentar", "do não valorizar" muito presente. Apesar da dor ter sido há muito tempo considerada o 5º sinal vital, penso na prática ainda há muito a fazer... Adiante, a minha vida deu uma grande volta! Não conseguia estar, fazer, pensar ou sequer ser com o nível que a dor atingiu! Felizmente no meio da minha luta pela paz encontrei um médico que me ajudou. A par do controle terapêutico também realiza algumas intervenções, como radiofrequência, infiltrações com corticóide ou até com toxina botulínica e colocação de neuroestimulador. Faço trabalhos manuais, que são uma terapia... Sou também seguida pela consulta de psicologia de dor, fisiatria (faço fisioterapia miofascial) e por Neurologia. Só que tenho, volta e meia recaídas onde a dor atinge níveis atrozes! Ainda estou a tentar recuperar de uma dessas recaídas, e houve dias em que o suicídio me pareceu o único alívio para a dor! Seguro-me à minha vontade de lutar (que muitas vezes enfraquece)e à minha família. Afinal eu quero viver. Mas acima de tudo desejo paz!"
Lina Gomes
Designer

Depressão major

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"Então cá vai. Tenho 24 anos, fui diagnosticada com depressão aos 13, desde então tive 5 recaídas. A recaída mais grave foi aos 16 onde tive de ser internada por um pré esgotamento nervoso, perdi cabelo, peso e "amigos". Estou na minha 5° recaída à 2 anos, nunca fui de desabafar e sim de chorar até adormecer, outra história são as insónias constantes, ataques de ansiedade e de pânico. Aprendi a viver com isto de tal maneira que quando os níveis de stress estão no auge descarrego em quem não tem culpa. Estou a começar a falar sobre isso com quem está ao meu lado. Mas demoraram 11 anos até eu conseguir desabafar. Tente medicação, mas não queria ficar viciada. Meditação não dá para mim, descobri que havia algo que ajudava-me imenso, o desperto. Toda a adolescência pratiquei desportos de competição. Tornei-me uma perfeccionista, chata e irritante que nunca gosta como as coisas estão. No trabalho acho sempre que podia estar melhor, o que também me faz querer melhor em todos os aspectos. Hoje tento explicar e fazer com que compreendam que não sou maluquinha e que dá para ter uma vida completamente normal. Tenho a sorte de ter alguém que compreenda quando eu não quero falar e que me seca as lágrimas quando são a única coisa que saiem de mim. No ano passado fui a uma escola secundária para falar da minha experiência com a depressão e as influências que o bullying tiveram. Escrevo texto quando estou em crise e até comecei a fazer curtas metragens."
S, 🚺, 24
Criadora de conteúdos
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