Psicossomática, Psicossomatização e a Era do COVID-19

Quando abordamos o tema da psicossomática, é importante entendermos o que representa no seu todo. Por um lado temos a patologia psicossomática, por outro temos a psicossomatização. Num abordamos a faceta patológica, noutro abordamos um processo em que o corpo responde pela mente. Apesar de ambos estarem interligados, a patologia remete para a incapacidade do indivíduo se exprimir, enquanto que na psicossomatização, certas situações tornam-se demasiado intensas, é o corpo que ganha a palavra que não consegue ser verbalizada. 

Então, afinal de contas, do que se trata isto? 

A psicossomática remete para a definição da diferenciação mente-corpo. No seu processo normativo, o indivíduo aprende que existe a sua mente e existe o seu corpo, conseguindo separá-los e representá-los individualmente. Na psicossomática, há uma carência na representação (mental) do corpo e o sujeito baseia-se nas representações sensoriais, onde não há diferenciação entre a mente e o corpo – tornam-se um. A indiferenciação é a primeira condição para a patologia psicossomática. Há um desligamento dos afetos, um corte com as emoções e pouca capacidade reflexiva – que impede a compreensão das emoções e sentimentos e o seu processamento interno. O corpo é chamado a manifestar-se porque a mente não é capaz de dar conta da problemática subjacente, resultando no desligamento entre a mente (que comporta o problema) e o corpo (que externaliza o problema).

O que é típico da psicossomática é um corpo que deixa de ser capaz de falar e exprime apenas o sofrimento mental. Há uma diferença muito grande entre um corpo que exprime – psicossomatização – e a psicossomática, em que há uma desorganização funcional; esta dicotomia corpo-mente é extremamente importante na psicossomática porque é a falta da sua divisão – em que a mente em vez de assimilar e comportar as questões que a afligem, não consegue dar resposta e encaminha para o corpo a externalização da preocupação – que origina a patologia. É precisamente a fala que falta ao doente, é a incapacidade de falar, de exprimir e de comunicar. Intimamente ligada a este conceito está a alexitimia, que representa a dificuldade em descrever as emoções. É uma espécie de iliteracia emocional, que não tendo capacidade de ler e falar as suas emoções, faz com que o seu pensamento se centre apenas em coisas externas e objetivas. 

Como vimos, a psicossomatização remete para psique (mente) e soma (corpo), tendo origem em problemas emocionais, manifestando-se depois em doenças orgânicas/físicas, que frequentemente, não são explicadas por exames médicos. Um preconceito errado sobre as condições psicossomáticas é que são imaginárias ou “tudo na cabeça”. Na realidade, os sintomas físicos destas condições são reais e devem ser tidos em consideração e nunca descredibilizados. É importante focar a parte física, tratando-a, e garantindo ao indivíduo que está bem fisicamente, porque de outra forma não conseguimos chegar à problemática psíquica que está por detrás das questões físicas.

Quando a mente está doente, o corpo acaba por o manifestar. São exemplos de doenças psicossomáticas: gastrointestinal (úlceras, gastrite); cardiovascular (hipertensão, taquicardia, angina); dermatológica (psoríase, eczema); enxaquecas, alergias, tendinites, artrites, disfunções sexuais, gripes, herpes. Isto realça a importância de se cuidar não só do corpo mas também da nossa saúde mental.

Devido ao alto nível de stress e ansiedade, o cérebro tem um aumento da sua atividade nervosa, elevando o nível de algumas hormonas no sangue. Muitas partes do corpo, como intestinos, estômago, músculos, pele e coração têm ligação direta com o cérebro, e são os mais afetados por estas alterações. Se nada for feito para diminuir as causas emocionais, novos sintomas ainda mais intensos podem surgir, diminuindo a qualidade de vida de quem os sente.

 

O impacto da nossa mente no nosso corpo já é algo bastante realçado, mas que agravou com a pandemia. Devido ao COVID-19, as pessoas estão mais ansiosas e preocupadas, tendo medo do contágio. Estar sob constante pressão, seja por medo de adoecer, de perder o emprego ou qualquer outra mudança indesejada, faz com que o corpo responda negativamente. Todo esse stress no corpo pode fazer com que as pessoas passem a ter sintomas parecidos aos da doença que temem, piorando ainda mais o quadro ansioso. Exemplos de sintomas são dispneia (dificuldades respiratórias), náuseas, taquicardia (coração acelerado), assim como cansaço e indisposição. Aprender a lidar com o stress é a chave para prevenir problemas desta natureza.

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Margarida Alves e Maria Ana Coelho

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