Masculinidade Tóxica

É um tópico que faz correr muita tinta e que temos cada vez mais ouvido falar nos últimos anos, mas o que é isto da Masculinidade Tóxica? O que é que tem a ver com a masculinidade e com os homens? E que impactos tem na vida das pessoas? É isso que vos vimos falar aqui.

Primeiro é importante distinguir masculinidade de masculinidade tóxica – nem todos os homens e os seus comportamentos representam masculinidade tóxica ainda que possam ter comportamentos manifestamente masculinos. A masculinidade representa um conjunto de atributos, atitudes e comportamentos habitualmente associados ao papel de homem. Sendo um construto socialmente desenvolvido, mas também influenciado por fatores biológicos, a masculinidade tóxica é construída por um conjunto de normas sociais que estão associadas a padrões de violência, força, poder, e, muitas vezes, sexo. Existe uma crença de dominância social inerente a esta ideia, onde há a promoção de vários comportamentos de brutalidade. É também um dos estereótipos que perpetua diversos problemas sociais, como a homofobia, misoginia, racismo e machismo, entre outras.

Uma das componentes que mais se destaca ao falar de masculinidade tóxica é a repressão emocional associada, uma vez que toda e qualquer expressão de emoções (para além da raiva) é considerada uma fraqueza, e um traço supostamente feminino. Desta forma, vulnerabilidade emocional não pode ser manifestada em público, e há uma tendência a ser abafada, mesmo em privado, uma vez que só o sentir essas emoções implica uma desconsideração pela virilidade, pelo ser másculo. Isto, claro, traz implicações diretas na vida dos homens, assim como dos que o rodeiam, uma vez que adotam padrões comportamentais que estão em conformidade com estas crenças que se intensificam e, portanto, “um homem não pode chorar” e muito menos “pode procurar ajuda – porque ajuda é para fracos”. Ao ditarmos que os homens têm de ser sempre fortes e não podem ter e expressar sentimentos, estamos também a impedir que estes compreendam e interiorizem as suas emoções e as dos que lhes são próximos, que encontrem formas de as expressar não recorrendo à agressividade e exteriorização por comportamentos violentos e impulsivos. A constante negação e repressão de sentimentos e emoções tem um profundo impacto na saúde mental, podendo levar a depressão ou até mesmo ao suicídio quanto tudo se torna demais para o próprio. Relacionar-se com outros por conexões emocionais implica uma descida a um nível mais subjetivo de si, implica autoconhecimento e introspeção, fatores que nos fazem sentir vulneráveis e abertos e são, assim, reprimidos, mantendo as relações numa base superficial sem grandes, ou nenhumas, manifestações de amor.

O sexo é uma forte componente da masculinidade tóxica, sendo que este tem de ser bruto, sem emoções associadas e movido pelo poder e dominância do homem sobre a mulher, assim como a quantidade de vezes e de parceiras que têm, de forma a reafirmarem constantemente o seu status perante os outros. O simples facto de um homem não ser “hipersexual” é muitas vezes visto como um traço feminino e um motivo de chacota perante outros homens. Quanto mais promíscuo e considerado “playboy”, maior será o seu status.

Esta crença tem efeitos prejudiciais não só para o homem como para a sociedade em geral – tem tendência a afastar os homens de desenvolverem relações próximas e saudáveis com os outros e até mesmo com os seus filhos. Para as mulheres, em particular, os efeitos são bastante notórios, quando há uma clara manifestação de dominância e violência para com elas (muitas vezes associado com comportamentos de violência doméstica e até mesmo de violações). Num ambiente laboral, por exemplo, não são capazes de ser geridos/liderados por uma mulher, considerando-a inferior e com menores capacidades que ele. A masculinidade é colocada e construída em contraste a feminialidade, portanto tudo o que seja realizado por um homem, mas que seja considerado feminino ou do papel da mulher – como a homossexualidade, fazer as lidas domésticas ou ser um pai presente e afetuoso – é automaticamente considerado algo menor, menos viril e serve para envergonhar o homem, mas também a desumaniza-lo.

A pressão para se ser másculo cria um estigma enorme, mas como há um desencorajamento total de procura de ajuda, estes nem sequer admitem que dela precisam, visto ser um sinal de fraqueza – e isto ainda hoje é perpetuado na nossa sociedade em geral, havendo muito mais mulheres a procurar ajuda. Isto leva-os a procurar outro tipo de estratégias para (não) lidar com as emoções mais negativas, levando a altas taxas de alcoolismo, abuso de substâncias e comportamentos de risco e de agressividade.

Como dissemos no início, isto não significa que todos os homens são assim, e que a masculinidade em si é negativa, apenas uma estreita vertente que é tóxica, não só para a sociedade, como para os próprios homens, e é nesta que temos de atuar, em conjunto.

Se precisares, não tenhas vergonha em pedir ajuda. Estás a lutar por ti e pela tua vida!

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa e Maria Ana Coelho

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