Relacionamentos, Amor, Desgostos e Lutos das Relações

Ao longo das últimas duas semanas, abordámos variados temas diretamente ligados às Relações Amorosas. Foram eles o relacionamento, o amor, os desgostos amorosos e o luto associado ao término de uma relação.

Iniciando pelos relacionamentos e o amor, existem fatores chave que devem estar presentes na gestão de um relacionamento e que, sem eles, não existe uma base síncrona entre duas pessoas que se amam. Como sabemos, o amor não é tudo e não pode sustentar uma relação, por muito amor que sintamos pelo outro. Dessa forma, alguns dos fundamentos básicos de uma relação devem estar assegurados.

A comunicação é um dos pilares base de qualquer tipo de relacionamento que desenvolvemos com outra pessoa, no entanto torna-se particularmente importante quando falamos nos relacionamentos amorosos.

São muitas as vezes em que os “problemas de comunicação” atacam a relação, tornando-se um ciclo vicioso de mau estar e infelicidade para os seus elementos. Estes começam a criar barreiras que podem ditar o fim do casal. Muitas das vezes a unilateralidade, as discussões “acesas” e o egocentrismo de cada elemento são decisivos para este desfecho e influenciam bastante a forma como as coisas são resolvidas. No entanto, como em todos os problemas, há formas de conseguirmos dar a volta para os tentar solucionar.

Primeiro é preciso atentar que nem sempre uma discussão tem de ser negativa, isto porque nos faculta informações importantes sobre a personalidade da outra pessoa para as quais podíamos não estar tão alerta, assim como perceber que tipo de tópicos origina a maior parte das discussões – serão coisas banais e mínimas, ou motivos relevantes para a relação?

O objetivo é chegar a uma comunicação saudável e eficaz que não só melhore a interação entre o casal, mas como a própria qualidade da relação e do seu amor.

O primeiro passo é ouvir, verdadeiramente, o que o outro tem para dizer – grande parte dos problemas apresentados pelos casais é a de que nunca ouvem o que dizem e isto intensifica a sensação de unilateralidade (só dar e não receber nada em troca) e leva a reações muito intensas de raiva ou, por outro lado, de desprezo. O objetivo é deixar a outra pessoa desabafar e estar verdadeiramente atento, sem distrações ou interrupções – façam isto de forma alternada para que ambos os elementos do casal tenham a oportunidade de expor a sua perspetiva e explicar o que os inquieta.

O segundo passo é refletir sobre o que foi dito pela pessoa, de forma a esta sentir-se ouvida e compreendida, sem críticas ou julgamentos, nem tentativas de criar mais problemas ou discussões. Podem contrapor ideias, mas sem que a estas estejam associadas uma noção de se estar certo ou errado.

Por fim, devem direcionar a discussão para a resolução do problema em questão e para isto podem fazer um brainstorm de possíveis soluções que permitam chegar a um consenso entre ambas as partes – é importante lembrar que aqui todas as opções são válidas e devem ser tidas em consideração.

Assim como a comunicação é um dos pilares fundamentais, outro também igualmente importante é a confiança entre as pessoas que formam a relação. A falta de confiança afeta as mesmas e gera conflitos desgastantes para ambas as partes. A confiança não deve vir só de uma das partes da relação, deve ser sempre um trabalho mútuo no crescimento da relação para que exista uma maior compreensão da pessoa que temos connosco.

Primeiro que tudo é importante percebermos que gerar confiança/segurança faz com o outro se sinta acolhido e, consequentemente, retribua esse sentimento. É importante que nos sintamos seguros com a pessoa com quem estamos, bem como sermos também nós um porto seguro para o outro.

Já há uns tempos falámos da individualidade nas relações e da importância que tem (https://www.thepineapplemind.pt/2020/08/13/individualidade-nos-relacionamentos/) . Esta individualidade está intrinsecamente ligada à confiança que depositamos no outro. Manter o equilíbrio numa relação entre tempo individual para fazer coisas que gostamos e focarmos a atenção em nós próprio para que possamos dar ouvidos às nossas necessidades, é tão importante como o tempo que passamos em casal e a fomentar a relação. Apenas com uma base de confiança é possível manter este equilíbrio porque vai-nos permitir viver afastado do outro e independentemente do outro. Uma relação não deverá nunca ser uma simbiose entre duas pessoas, mas sim duas pessoas individuais que caminham juntas lado a lado e ajudam-se mutuamente a crescer.

Em terceiro lugar, a honestidade e a sinceridade entre o casal é um fator crucial para uma base de confiança. Esta honestidade e sinceridade é não só para com o nosso parceiro, mas também e muito importante, é para connosco. Se somos verdadeiros connosco em qualquer circunstância, vai-nos permitir uma maior abertura para receber o outro e sermos também honestos com eles.

A frustração, a desconfiança, a insegurança, os medos e as discussões são algumas das consequências da falta de confiança numa base relacional. Algumas estratégias que podemos adotar e ter em atenção para desenvolver esta confiança são:

                – Procurar manter um diálogo aberto em vez de ignorar falar dos assuntos que nos são mais difíceis de lidar.

               – Assumir responsabilidade nos nossos atos e não sermos egoístas, bem como admitir quando estamos errados e não culpar o outro. Uma relação é vivida a dois, não poderá haver só uma pessoa responsabilizada por carregar a relação.

               – Respeitar sempre o outro e não ignorar as suas necessidades.

               – Arranjar formas de solucionar os problemas em vez de fomentarmos as discussões porque é mais fácil.

               – Termos liberdade e sermos livres, em vez de controlarmos os passos do nosso parceiro.

          No entanto, por vezes, as relações não correm como esperamos e terminam. Não é necessariamente uma coisa má acabar uma relação. Serve para aprendermos e crescermos, tirarmos partido das coisas boas e menos boas que aconteceram para nos conhecermos melhor e agirmos com base no conhecimento que ganhámos.

O fim de um relacionamento representa sempre um marco de vida. É o fim de um capítulo, de uma fase, de um período que, quer para o bem como para o mal, nos transforma internamente. E como qualquer coisa que se perde, há um período de luto do que foi essa relação, do que ela significou para nós e da pessoa que nos separamos. Nem sempre tem de haver um problema ou algo de mal a acontecer entre os elementos do casal para resultar no fim

A forma como reagimos ao fim de uma relação varia muito tendo em conta o tipo de relacionamento que tínhamos com a outra pessoa, a duração da relação, como foi o momento da separação, o que motivou a separação, etc – tem várias reações físicas, emocionais e comportamentais inerentes a esta separação que são.

Ainda que seja ampla a gama de emoções pelo qual passamos, este luto pode ser caracterizado, principalmente numa fase mais inicial, por um período mais depressivo e ansioso, com sensações de tristeza, solidão, angústia, raiva, perda de nós mesmos e fracasso. Estas são naturais de acontecer e não devem ser inibidas ou bloqueadas – quanto mais as libertares, mais rapidamente as consegues reconhecer, compreender e gerir melhor de forma a conseguires seguir em frente com a tua vida. Permite-te sentir cada uma delas, chorar quando necessário e dar um tempo para sarar como fazemos com qualquer ferida. Mas é importante não te deixares dominar por elas durante um longo período de tempo – pode ser prejudicial para ti e para a tua saúde mental. Para isto, damos-te alguma dicas sobre o que podes fazer para gerir melhor estas sensações:

·    Exprime as tuas emoções – para além de ser importante libertares física e verbalmente o que sentes, pode ser importante recorreres a formas mais criativas para te expressares. Pintura, música ou escrita podem ser algumas das formas que te podem ajudar com esta tarefa. A escrita pode ser particularmente importante, pois leva-nos a processar e articular de forma mais clara os nossos pensamentos e sentimentos de maneira a colocá-los em palavras – deixa-te levar, sem pressões ou julgamentos.

·    Não te isoles – é normal que sintas necessidade de ter algum tempo para ti e deves dar-te permissão a isso mesmo, no entanto é muito importante não nos separarmos totalmente das pessoas que nos rodeiam e querem bem. Procura uma rede de apoio/amigos em quem confies que te permitam libertar o que sentes, desabafar e que possam também ser uma fonte de escape e distração.

·    Desativa as redes sociais – depois de uma separação pode ser importante fazeres uma pausa das redes sociais e afastares-te de qualquer lembrete da pessoa de quem te separaste. As horas no feed a ver as suas fotos e atualizações, a busca por uma informação de como está, com quem está ou de algo relacionado com a relação é esgotante e prejudicial para a tua recuperação. Pode ser difícil, mas dá uma tentativa.

·    Cuida de ti – já diz o ditado “se eu não gostar de mim, quem gostará?” – o momento da separação pode ser uma ótima oportunidade de auto-conhecimento, desenvolvimento e crescimento. Aproveita para investires em ti e redescobrires o que te faz feliz fora de uma relação – descobrir um novo hobbie, um novo sítio para passear, fazer exercício físico, e dormir bem são tudo coisas que te podem ajudar a manter o teu bem-estar.

É importante que te permitas sentir o fim do relacionamento e não guardes para ti fechado a sete chaves o que viveste. Usa isso para refletires e aprenderes sobre ti como pessoa individual e sobre ti como pessoa numa relação – mantendo sempre a tua individualidade, claro.

E porque é que isto é importante?

Porque quando não vivemos bem o fim de uma relação e não aceitamos o que aconteceu, muitas vezes não conseguimos passar para uma próxima relação saudável, por muitos relacionamentos que tenhamos a seguir. Seguir em frente significa conseguires focar a tua atenção e o teu amor na pessoa que tens agora ao teu lado. E antes de teres uma pessoa, tu és essa pessoa. Foca em ti e ama-te. Facilmente projetamos na pessoa seguinte as coisas que correram menos bem na relação anterior, e passamos a viver numa dualidade relacional entre a pessoa que temos connosco e a pessoa que deixámos. As nossas expectativas deixam de ser baseadas na vida que estamos a viver com o novo parceiro, mas sim no que queríamos que tivesse acontecido na vida passada.

O luto pode ser uma palavra forte. Mas é isso mesmo, permite-te fazer um luto da relação que tiveste. Não perdeste a pessoa fisicamente, mas perdeste uma grande parte emocional de ti que estava ligada a uma pessoa com quem partilhavas a vida. Dá um tempo para assimilares tudo.

Os relacionamentos permitem-nos desenvolver enquanto ser social e emocional e o crescimento é sempre bom. Garante que tens uma relação saudável com o teu parceiro.

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa e Maria Ana Coelho

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