Psicologia Clínica: Diversas Abordagens

         Ao longo do mês de Janeiro trouxemos-te diversas áreas da psicologia. Por um lado, para darmos a conhecer as vertentes que existem dentro da própria psicologia clínica, por outro, para perceberes e conseguires ter uma noção das diferenças que as constituem. Seja porque gostavas de ter ajuda profissional, mas são tantas as áreas que não sabes por onde enveredar, ou porque tens um genuíno interesse em entender melhor o que se passa dentro da psicologia clínica. 

       Começámos o mês pela Psicologia Clínica Dinâmica. É uma vertente comummente conhecida pela sua origem e respetivo padroeiro: Freud. A Psicologia Dinâmica decorre da psicanálise que vem da teoria de Freud, que fez a formulação clássica dos aspetos psicológicos do funcionamento mental. Representa uma teoria do funcionamento da mente e um método de investigação dos processos mentais inconscientes. Esta Teoria do Funcionamento da Mente dá-nos dois postulados básicos a partir dos quais desenvolvemos toda a prática psicanalítica:

                   ❖ Determinismo Psíquico: a vida mental é determinada por acontecimentos do passado (início do desenvolvimento e passado recente), ou seja, existe uma associação que se pode estabelecer entre perturbações psicológicas na idade adulta e situações traumáticas na infância;

              ❖ Inconsciente: a vida mental é essencialmente inconsciente, o consciente é apenas a ponta do iceberg, ou seja, não temos acesso direto a conteúdo inconsciente, mas apenas àquilo que dele deriva; existe um foco no que é subjetivo.

         Podemos considerar que toda a psicoterapia visa, no geral, dois objetivos: por um lado, aumentar a compreensão que a pessoa tem de si mesmo, e por outro, criar mudanças específicas no comportamento dos indivíduos; no caso específico da psicoterapia Dinâmica, o psicoterapeuta procura levar o paciente a um processo de insight e a mudanças na sua conduta. As Psicoterapias Dinâmicas, sejam elas de longa ou de breve duração, procuram por um lado Interpretar o conflito intrapsíquico e por outro Confrontar e Clarificar, possibilitando a expressão de sentimentos do indivíduo e reforçando as defesas ao oferecer um marco de contenção para as ansiedades do cliente.

          As formas de intervenção podem assumir características variáveis, desde o apoio relacional num quadro de psicoterapia breve até à psicoterapia psicanalítica com duração mais prolongada, sendo as principais áreas de intervenção os problemas de desenvolvimento no ciclo de vida (infância, adolescência, idade adulta e idade adulta avançada), crises de vida, problemas relacionais (nomeadamente dificuldades e conflitos na escola, no trabalho ou na família), problemas ao nível dos relacionamentos próximos e/ou íntimos (na família ou no meio mais alargado) e experiências pessoais de sofrimento psíquico (e.g., ansiedade, depressão, baixa autoestima…).

          Continuámos, de seguida, com a Psicologia Clínica Cognitivo-Comportamental. A abordagem cognitivo-comportamental foca-se na compreensão dos padrões comportamentais e cognitivos desadaptativos da pessoa. O psiquiatra americano Aaron T. Beck é considerado o pai da terapia cognitivo-comportamental, que surgiu inicialmente como uma abordagem terapêutica da depressão sendo, posteriormente, aplicada a outros quadros patológicos. O principal objetivo desta abordagem é o de conseguir que a pessoa encontre novas estratégias para lidar com uma situação que lhe é particularmente adversa, esta perspetiva foca-se, portanto, sobretudo, no presente e nos padrões que mantêm essa mesma situação adversa. 

            Para esta vertente, pensamentos, emoções e comportamentos formam uma tríade, a qual pode estar afetada, isto é: pensamentos desadaptativos levam a emoções mais negativas e, consequentemente, a comportamentos também eles desadaptativos que muitas vezes acabam por validar este ciclo e perpetuar o problema. 

             Algumas estratégias utilizadas por esta abordagem terapêutica são a psicoeducação, o registro de pensamentos disfuncionais, a dessensibilização sistemática, o questionamento socrático, treino de competências sociais e também, técnicas de relaxamento. 

            Logo depois, veio a Psicologia Clínica Sistémica, que tem como principal objetivo compreender o funcionamento da pessoa através das relações que esta estabelece com os sistemas em que está inserida. É baseada em três grandes paradigmas:

              Cada sistema é complexo, sendo composto por vários elementos com os seus atributos e pelas suas inter-relações com uma organização própria, regido por regras, conferindo-lhe um significado único. Desta forma, nunca conseguimos compreender o todo sem conhecer as partes e vice versa.De forma mais particular, esta abordagem atua principalmente nos sistemas familiar, conjugal/relacional e comunitário.

             A família é um dos sistemas mais paradoxais nos quais estamos inseridos – são, normalmente, a nossa principal fonte de apoio, mas também de stress. Por isso mesmo, por vezes, é necessária uma intervenção em algum dos seus subsistemas (ex conjugal, parental e filial), sendo para isto preciso compreender o funcionamento e interação dos seus elementos. Assim, é também importante perceber como foi o desenvolvimento familiar e o ciclo de vida, que se referem às trajetórias que cada família levou de forma contínua e ininterrupta, tendo em conta as suas etapas normativas, fases de transição de cada elemento e situações não normativas que podem ter ocorrido. A terapia de casal é uma das variantes da psicologia da família, no qual o principal objetivo é perceber o que está na origem e manutenção dos problemas relacionais e explorar os padrões da relação e de comunicação que há entre o casal, para que estes sejam mais eficazes na resolução de problemas.

              A psicologia comunitária surgiu no sentido de dar resposta a um conjunto de problemáticas que surgem em sistemas sociais (comunidades) e que se inter-influenciam com o comportamento humano. Pretende intervir, preferencialmente de forma preventiva, na resolução dos problemas psicossociais e no desenvolvimento humano, a partir da compreensão dos determinantes socioambientais que conduzem a esses problemas e através da modificação dos sistemas. Assim, há uma tentativa de mobilização máxima (participação ativa) dos destinatários. Atua em várias áreas de intervenção, como a delinquência, a toxicodependência, sem-abrigo, reabilitação psicossocial, entre muitos outros. Os principais objetivos desta vertente é detetar tanto os riscos como os recursos que o contexto social e os seus elementos fornecem à comunidade, prevenir e intervir nos problemas psicossociais na comunidade assim como nas perturbações mentais dos seus elementos e promover o desenvolvimento, participação e integração na comunidade.

               Por último, trouxemo-vos a Abordagem Gestalt e  Humanista.

        A Psicologia Humanista é considerada, em termos da História da Psicologia, como a terceira força ao lado da Psicanálise e da Psicologia Comportamental. Esta 3ª força surge da necessidade de olhar o ser humano de uma forma menos determinista, isto é, nem como sendo somente um “ser mental”, nem somente comportamental. O primeiro autor a desenvolver uma teoria humanista foi Abraham Maslow com a Pirâmide de Necessidades, porém um dos nomes mais sonantes do Humanismo é o de Carl Rogers. 

                O  Humanismo perspetiva o ser humano enquanto um ser que procura a auto-realização e que tem dentro de si um potencial para a alcançar. Para os psicólogos desta corrente  é essencial que se compreenda que o ser humano é muito mais do que a soma das suas partes, que vive em relação com o outro e que é um ser consciente e livre para fazer as suas escolhas intencionalmente. 

                 A abordagem Gestalt, desenvolvida por Fritz Perls, é uma abordagem que, segundo o autor,  não se preocupa apenas em lidar com os sintomas ou com a estrutura do carácter, mas com a total existência do indivíduo. É uma abordagem humanista, que visa que todo o indivíduo e a sua experiência têm influência do contexto no qual estão inseridos e que, para perceber a pessoa, é importante que se perceba primeiro o seu contexto. O efeito percetivo de um estímulo particular depende sempre do contexto em que está inserido

            Como expusemos, existem diversas abordagens teóricas na psicologia, durante este mês exploramos as quatro acima mencionadas, porém, existem muitas mais como por exemplo o construtivismo, o existencialismo, etc. Pela riqueza desta diversidade de abordagens e de técnicas de intervenção existem vários psicólogos que optam por uma posição mais integrativa na sua prática profissional, isto é, utilizam contributos das várias abordagens para melhor compreender e ajudar a pessoa. Esta visão integrativa apresenta múltiplas vantagens visto que permite adequar o melhor possível a intervenção à pessoa com quem se está a intervir. 

                 Em jeito de conclusão, é importante reforçar que, independentemente das abordagens teóricas e das técnicas que o terapeuta possa utilizar, este será sempre alguém que toma cada indivíduo, cada pessoa que pede ajuda, como única. Assim sendo, tentará ajudar a pessoa  a trilhar o seu caminho de mudança e de desenvolvimento. Se sentes que esta ajuda poderia ser importante para ti não hesites em pedi-la, os psicólogos estão cá para colocar o seu saber ao serviço das comunidades e de todas as pessoas, sem exceção, em prol do seu bem-estar e da sua saúde mental.

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa, Inês Freitas, Maria Ana Coelho, Neuza Noronha e Violeta Oliveira

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