Aborto Espontâneo

    A gravidez é um momento especial e uma experiência única na vida de uma mulher. É a descoberta de novas emoções, identidades, significados e papéis. É um momento gerador de novas exigências e afeções, em particular com o filho. Muito antes do nascimento do bebé, existe a construção de uma relação efetiva nova, a exploração de processos psicológicos afetivos nunca sentidos, a mãe começa a idealizar o seu bebé, a criar uma história, a pensá-lo e a senti-lo. No entanto, por vezes os abortos espontâneos acontecem. É a negação total das últimas experiências desta mãe, é a impossibilidade de conhecer este bebé.

     Um aborto espontâneo, em termos técnicos, é a perda de um feto, quer por ocorrência acidental ou fatores naturais. É importante diferenciar o aborto espontâneo de aborto induzido, uma vez que o segundo é a interrupção voluntária da gravidez.

     O aborto espontâneo é a perda significativa e inconsciente de um bebé que estava a crescer connosco, que fazia parte de nós, numa simbiose perfeita. Na maioria dos abortos espontâneos, nenhuma causa é identificada, no entanto, existem certos fatores de risco que aumentam a propensão para o mesmo, como:

            – idade avançada (acima dos 35 anos)

            – anomalias estruturais dos órgãos reprodutores

            – uso de substâncias

            – ferimentos graves

            – infeções

            – tiroide hipoativa/hiperativa

            – diabetes

            – distúrbios como doença renal crónica, lúpus e hipertensão arterial, quando não controlados durante o período gestacional.

     É mais provável que o aborto espontâneo seja repetido quando já se sofreu um previamente, aumentando o risco para ter outro. Certas causas, quando não corretamente corrigidas, tendem a causar abortos espontâneos repetidos. Na evidência de uma mulher sofrer vários abortos espontâneos, é esperado que seja uma anomalia nos próprios cromossomas. O diagnóstico pressupõe sempre a avaliação médica, é importante, necessário e crucial recorrer sempre a profissionais de saúde.

     O aborto é a morte, é a perda. Entender a morte é complicado, é um processo moroso e doloroso. É enfrentar a ausência. A ausência, neste caso, de alguém que não chegou a estar inteiramente presente connosco. Como respondemos a esta ausência? A perda de um filho é um processo traumático ligado à perda de um objeto de amor.

     O luto, a culpa, a tristeza, a raiva e a ansiedade são respostas emocionais bastante presentes. O luto é uma resposta natural e não deve nunca ser suprimida. Lidar com o luto é a forma necessária de conseguirmos viver com a perda. A raiva e a culpa aliam-se na incerteza, na busca de razões e de “porquês”, no sentimento de proteção enquanto função maternal. Somos o ambiente no nosso bebé e sentimos que falhámos em mantê-lo connosco. A culpa que sentimos não é dos nossos atos concretos, é do desconhecimento do que pode ter acontecido. Perguntamo-nos continuamente o que fizemos de errado, o que tomámos de errados, o que possamos ter feito para não correr bem quando esta razão é exterior a qualquer comportamento imaginável. Estes sentimentos de culpa causam mais sofrimento psicológico, a autoestima baixa e sentimo-nos impotentes, sem saber o que fazer. O entendimento destes sentimentos avassaladores pelos que passamos é uma ponta para ultrapassar a dor.

     Como podemos apoiar alguém que acabou de passar por um aborto? Não existem comportamentos certos que funcionem, palavras mágicas, é importante estarmos presentes para ouvir e disponíveis para o que precisarem.

     Algumas coisas que podemos fazer é:

            – utilizar expressões empáticas

            – não interromper o outro enquanto fala

            – evitar movimentos de distração

            – concentrarmo-nos no que o outro nos está a dizer

            – não interpretar o que é dito

            – mostrar que estamos atentos

     A individualidade do Ser faz com que cada pessoa reaja de maneira diferente a uma mesma situação, por vezes um sorriso ou uma palavra amiga são suficientes para apoiar e suportar o outro. Viver o período de dor e sofrimento faz parte do processo saudável da perda. A ajuda profissional, se sentirmos que necessária, deve ser procurada.

     Para entenderes melhor o luto, lê a nossa publicação inteiramente dedicada ao tema (https://www.thepineapplemind.pt/2020/07/30/luto/).

     Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa e Maria Ana Coelho

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