Saúde Mental e Deficiência

A sociedade atual esconde-se através do véu (a nosso ver, ilusão) da inclusão e do sensível à diferença. E porque é que dizemos que se esconde? Esconde-se porque, esta sociedade, é a sociedade que funciona e se revê na premissa do poder e da subjugação. Onde reina o “parece ver” e o “parece ser visto” (falso reconhecimento), o “parecer ser” e o “parecer ter” (lógica da falsa inserção, da hipocrisia e do consumismo). Esta sociedade está ferida narcisicamente. Exibe a sua grandeza, a sua solidariedade para esconder o podre e as inúmeras fragilidades que tem. Uma delas é o lugar da deficiência.

Quando falamos em deficiência, falamos não só daquilo que se vê, mas, também, do sofrimento que incapacita. A deficiência, a bom saber, existe, também, enquanto facto social e sensível sob a forma de discriminação positiva. Esta forma existe para regulamentar e criar oportunidade para quem é portador de alguma fragilidade diferenciadora. E a essa forma, um bem-haja!

Agora, o que nos parece importante ilustrar, é que não podemos compactuar com a “doce ilusão” de que a sociedade identifica, protege e é sensível ao diferente. Somos o Homem moderno e tecnológico, e de certa maneira, é essa tecnologia que nos afasta da natureza e dos propósitos desconhecidos dessa mãe, que é mãe de todos.

É perturbador pensar que nestes tempos, ainda há segregação, ainda há risos e palavras com conotação negativa associada à minoria, diferença e deficiência. É isto que torna as pessoas doentes. A não validação e a falha empática não nos permitem construir e incluir, mas, sim, dominar e subjugar, diferenciar e excluir. Só através do querer compreender e realmente compreender é que podemos agir e agir em conformidade e em consciência. É a sociedade e o sistema social que torna o outro doente, precisamente, pelas forças opressivas que se fazem atuar nos mais vulneráveis e naqueles que mais dificuldades têm em se defender.

A deficiência não é a doença ou aquilo que torna doente; é a sociedade que espelha esse reflexo e faz com que as pessoas se sintam dessa forma: que não são humanas ou que não são dignas de pertença.

Como qualquer pessoa, os indivíduos portadores de deficiência (IPD), quer física quer mental, não estão livres de desenvolver perturbações mentais e, por vezes, estão até mais suscetíveis pelo seu meio envolvente.

A contínua falha na integração social dos IPD, que perpetua a forma estigmatizada como a sociedade olha para eles, que, consequentemente, afeta a própria identidade pessoal. Tal acontece porque o nosso sentido de identidade é, também, influenciado pela ideia que os outros têm de nós (ou a que imaginamos que têm). Assim, quando existem muitos preconceitos e estereótipos da sociedade perante a pessoa, esta começa a desenvolvê-los também em si, resultando comummente em baixa autoaceitação e sentimentos negativos fortes de angústia, raiva e insegurança, que podem aumentar o risco e desenvolver-se em perturbações como a depressão.

Os indivíduos portadores de deficiência física têm, desde nascença, o seu desenvolvimento emocional e de estruturação da personalidade a ocorrer em consonância com a sua auto-perceção corporal, o que pode facilitar a autoaceitação ao longo dos anos. No entanto, para pessoas que desenvolvam a deficiência algures na sua vida deixam de reconhecer o seu corpo e se identificar com ele, ocorrendo uma rutura na sua autoimagem e até identidade.

No entanto, a identidade vai-se adaptando e construindo na relação com o mundo, logo quando se dão mudanças positivas na perceção que o mundo tem de nós, a nossa auto-perceção também tende a mudar, ficando cada vez mais fortalecida.

Para alcançar a autoaceitação, os IPD precisam de estar em constante adaptação e desenvolver ferramentas para superar os vários obstáculos que lhes são colocados diariamente. À medida que os vai ultrapassando, a sua autoimagem vai melhorando, ganhando um sentido de identidade muito mais direcionado para força e determinação. Isto contribui para um favorecimento da autoestima e, consequentemente, até para melhores relações interpessoais, primando, tanto quanto possível, pela independência.

A primeira resposta que damos àqueles que mais gostamos é a proteção. O sentir-se bem consigo mesmo é a chave para uma abertura e aceitação de quem somos. Por vezes, esta aceitação é fragilizada, não correspondendo a certas expectativas previamente criadas, tanto por nós, como pelos que nos rodeiam.

Desenvolvemo-nos de dentro para fora, começando connosco, seguido do nosso núcleo mais próximo ao mais afastado, até à sociedade envolvente. Quando estamos mais fragilizados, o nosso núcleo mais próximo, aqueles em que mais confiamos e de quem mais gostamos, está lá para nos suportar, para nos apoiar e manter alerta. Mas este apoio, ainda que bastante necessário, pode tornar-se sufocante. O excesso de proteção do IPD chega a incapacitá-lo. A rede de apoio é um fator tão importante como tudo o resto. Não obstante, é necessário que dê ao IPD espaço e tempo para ser. Simplesmente para ser. Ser quem é, ser quem ambiciona ser. Chegar onde pretende, atingir os seus objetivos. Por si.

A frustração, a revolta, a zanga, o amor, a felicidade, tudo faz parte. Os sentimentos ambivalentes de querer deixar voar, mas continuar com a mão dada fazem parte. O medo, faz parte. Mas faz crescer também. E acima de tudo, faz com que se tornem indivíduos próprios.

A nossa sociedade não está preparada para lidar com a deficiência, por culpa da própria sociedade. Não existe abertura para entendimento, para integração e aceitação. A deficiência não se limita à deficiência física ou à deficiência mental. A pessoa não se limita à deficiência. Faz parte, mas não é o todo. Pensar o lugar da deficiência é urgente. A sociedade, narcísica, não tem o direito de esconder as suas fragilidades negando-as ou desmentindo-as e colocando-as nos outros. Até quando podemos ficar sem fazer nada? Hoje é o melhor tempo de sermos sensíveis. E, hoje, em particular, à deficiência e ao diferente.

Departamento de Pedagogia e Formação – Maria Ana Coelho, Inês Costa e Soraya Bento Morais

Copyright © 2019 Pacifico. Developed by OvaTheme