Estigma no ambiente laboral e estudantil

O estigma associado à saúde mental faz-se corresponder ao preconceito e, é este mesmo preconceito que está associado ao medo do desconhecido, ou seja, ao medo do que é diferente. Este medo do desconhecido esconde uma verdade ainda mais assustadora: a falta de compreensão e conhecimento.

Quando falamos de estigma não o circunscrevemos a um perfil específico ou a um contexto específico. Hoje em dia está em voga o “não discrimines” – começamos a ter uma política de ação e sensibilização maior do que em tempos anteriores, mas, ainda assim, não é suficiente. Erradicar o estigma é, também, erradicar a indiferença às questões do Ser Humano e às questões ligadas à sua diversidade e, até mesmo, dignidade. É comum ouvirmos a expressão “é de pequenino que se torce o pepino” e é verdade! Mas, este ditado-popular, também, se aplica, infelizmente, a este tema que badala este mês: o estigma. Sendo que, o estigma é, também, um facto social, poderá ser “transmitido”, muito pelos exemplos que nos rodeiam. As nossas crianças, ainda em torno das descobertas deste mundo, imitam aquilo que ouvem, aquilo que veem. Tomam os seus pais como os seus exemplos e levam esses exemplos para as escolas e, posteriormente, para as suas universidades e locais de trabalho.

Educar para a sensibilização e para a diferença é uma obrigação e um direito. Podemos agir precocemente com as nossas crianças para que elas um dia possam ajudar outros. Ao invés de estimularmos e incentivarmos a segregação podemos, e devemos, estimular a tolerância.
Será que medimos o verdadeiro impacto do estigma associado à saúde mental? Será que compreendemos que as nossas crianças são os adultos do futuro? E que é na idade escolar que determinamos e aperfeiçoamos o nosso instrumento relacional que é a empatia? Compreendemos que a intolerância, indiferença, estigmatização em meio escolar que pode ter repercussões ao nível da saúde/doença – física, mental, escolar, social, relacional e laboral?
Citamos um principio geral do código de deontologia dos psicólogos portugueses: “(…) obrigação em olhar para a pessoa como um ser único, diferente de todos os outros, com vontade própria que, mais do que ser respeitada deverá ser promovida no contexto relacional característico da pessoa humana. (…) respeitar (…)”. Cada um de nós, tem o direito a ser respeitado e aceite na sua individualidade e diversidade.

Esta sensibilização deve começar em casa e, é na escola que ela pode ser vivida e experienciada com sentido. Começamos a falar de cidadania, mas… cidadania não é, também, encorajar as nossas crianças a respeitarem o outro? No meio estudantil, quantos alunos, estigmatizados, segregados foram colocados num lugar escuro de isolamento. Quantos deles se viram bloqueados perante obstáculos como a insensibilidade do colega ou do professor? Quantos deles foram “coagidos” pela estigmatização a acreditarem que era a doença, o rótulo, o sofrimento que os definia enquanto pessoas? Quantos deles foram marginalizados e impedidos de se realizarem? Quantos? Se a escola não for um dos meios de expressão de educação e sensibilização para a saúde mental então, deveremos repensar o que andamos cá a fazer.

Nós sabemos e é por isto que queremos lutar… e tu, queres?

Como já o dissemos noutras ocasiões, os problemas de saúde mental têm um impacto tremendo na vida de cada pessoa; quer a nível pessoal, na forma como a pessoa vive e lida com eles, como a nível social, com a maneira como estes problemas interferem nas relações interpessoais e na disponibilidade afetiva que a pessoa tem para os outros. Mas poucas são as vezes em que pensamos nos impactos que os problemas de saúde mental têm no plano profissional de cada um e que muitas vezes não são tidas em consideração no momento de tomada de grandes decisões.

Comumente estas perturbações explicam grande parte da redução da produtividade e até do absentismo laboral.

Por muito que um trabalhador seja uma parte funcional de uma entidade empregadora, este não é somente uma máquina que faz dinheiro para a mesma. É um Ser Humano e deve ser entendido e tratado como tal. A entidade empregadora tem de compreender que estar presente fisicamente (ou virtualmente, nos tempos que correm) não simboliza capacidade e sanidade para o trabalho. Por muito que as aparências estejam lá, a mente também precisa de acompanhar o corpo. Quando existe uma barreira que impede o trabalhador de estar presente mentalmente, de que serve a aparência?

A entidade empregadora detém aqui um papel crucial na performance dos seus, não só para propósitos empresariais, porque convenhamos, é o foco da empresa, mas também porque o trabalhador deverá sempre ser tratado como um todo. Se existem check-ups obrigatórios da saúde física, exames anuais que servem para garantir que está tudo bem, porque é que a saúde mental continua a ser posta de lado?

O medo de apresentar uma baixa psicológica, que ainda simboliza um ponto de fraqueza muito enraizado na nossa sociedade, faz com que, constantemente, trabalhadores e mais trabalhadores prefiram continuar a puxar as forças que já não têm para assegurar um posto de trabalho. Os esforços são cada vez maiores, até atingir um ponto quase irreversível de cansaço e dor psicológica que agrava a cada dia que passa. Os despedimentos pós baixa psicológica são inúmeros. E porquê? Porque a saúde ainda não é vista de forma congruente com a pessoa.

Cada vez mais devemos trabalhar no sentido de construir uma sociedade de interajuda, de relacionamento, de hétero-desenvolvimento e não de rebaixamento e de negação. Enquanto os superiores não entenderem que não têm máquinas programadas para trabalhar no horário X com as tarefas Y, mas têm sim pessoas que, têm vidas pessoais, problemas pessoais e laborais, que, efetivamente, afetam todo o seu sistema, vamos continuar a perpetuar o estigma. A intolerância e o desprezo que existe pela saúde mental não pode continuar.

Mas não é só a entidade que gera estigma em relação à saúde mental. Entre trabalhadores também é comum haver bastantes tabus em falar sobre este tema. Os preconceitos existentes no quotidiano da nossa sociedade passam para o contexto laboral criando um espaço pouco acolhedor para a pessoa que sofre, sentindo necessidade de esconder o seu problema, quer por vergonha, como por receio do que os seus colegas possam pensar, em particular serem considerados menos trabalhadores e até virem a ser discriminados.

Muitas das vezes é a falta de conhecimento e compreensão que leva a perpetuação deste estigma. É comum existirem rumores sobre o estado mental dos trabalhadores sem que estes sejam provados ou verídicos. As pessoas sabem de meias verdades em relação umas às outras e em vez de esclarecerem dúvidas diretamente com a pessoa em questão, preferem manter as suas ideias, resultando muitas vezes em mudanças de comportamento e desenvolvimento de mau ambiente para a pessoa que está a sofrer.

Estes tipos de questões impedem que as pessoas, depois de recuperadas, consigam retomar à sua vida vocacional no seu local de trabalho com total plenitude, podendo até intensificar sintomas e outros problemas do foro mental.

Às vezes tal ocorre, não por malícia, mas pela ideia de que ao falarmos dos problemas diretamente com a pessoa, pode provocar uma reação negativa ou até servir de gatilho para algum sintoma ou crise mais grave. Na realidade, este é um dos mitos mais prevalentes e que contribui para a perpetuação do estigma. É benéfico falarmos da saúde mental e até dos problemas existentes na mesma: permite a nossa instrução, melhor compreensão e muitas das vezes compaixão pelo outro, pois percebemos o porquê de alguns comportamentos ou atitudes das pessoas.

Deste modo, é percetível o quão importante é começar a permitir a transparência destas problemáticas no local de trabalho e dar espaço a que a pessoa, se assim o entender, explique a sua situação, para que não se criem mal-entendidos à sua vida. E quando em dúvida, dirija-se à pessoa e pergunte o que se passa com ela, como se sente. Isto só mostra preocupação e a pessoa certamente saberá explicar melhor que ninguém o que está a passar e o que sente confortável em partilhar.

Departamento de Pedagogia e Formação – Maria Ana Coelho, Inês Costa e Soraya Bento Morais 

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