Saúde mental: Os meios de comunicação social e o estigma

Nas últimas semanas temos abordado a questão do estigma associado à saúde mental e acreditamos que ficou claro que as pessoas portadoras de algum tipo de doença mental são um grupo altamente estigmatizado, bem como, que as consequências deste estigma, tão enraizado na nossa sociedade, são sérias e bastante prejudiciais para quem, todos os dias, se vê obrigado a lidar com o preconceito. Como temos também vindo a defender, combater o estigma é uma necessidade urgente e, se é verdade que cada um de nós, com pequenas atitudes, pode contribuir para erradicação do estigma, também é verdade que há muitos outros passos que têm que ser dados. É neste sentido que hoje abordamos o impacto dos meios de comunicação social no estigma.

Os media têm um papel de extrema importância enquanto formadores da opinião pública e um papel fundamental na construção da realidade, tendo em conta a importância e a credibilidade que lhes é atribuída nos dias de hoje.  Seria, portanto, de esperar que os meios de comunicação social contribuíssem de forma ativa para a erradicação do estigma associado à doença mental, mas na realidade nem sempre é isso que acontece. Em 2015, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) realizou uma análise qualitativa das notícias relacionadas com a saúde mental publicadas pela imprensa portuguesa e percebeu-se que a maioria das notícias analisadas contêm, de alguma forma, presença de estigma e que, as notícias estigmatizantes surgem maioritariamente nos temas “crime” e “atualidade”, usando as perturbações psiquiátricas (como a depressão) como justificação para o crime. Fazemos referência ainda a Wahl (2003), que  refere que  as imagens dos media sobre a doença mental são frequentes e, ao mesmo tempo, incorrectas, desfavoráveis e prejudiciais para as pessoas com doença mental. Para além disso, o autor chama ainda atenção para o facto de a estigmatização levada a cabo pelos media ter, também, um impacto negativo ao nível dos serviços prestados a pessoas que sofram de doença mental. Isto porque compromete o seu acesso aos cuidados de saúde, uma vez que os políticos e o público em geral acreditam que pessoas com doença mental são perigosas, preguiçosas, irrealistas e desnecessárias no mercado de trabalho.

Muitas vezes, segundo as imagens dos media, as pessoas com doença mental estão afastadas da sociedade e são caracterizadas quase exclusivamente pela doença de que sofrem. Por vezes, as mensagens dos media também sugerem que as pessoas com doença mental são diferentes dos outros em termos das suas capacidades básicas, logo, os indivíduos com esse diagnóstico não poderão ser inteligentes, talentosos, dedicados, nem se espera possuam outro tipo de competências que pessoas sem doença mental têm. Ora, são estas imagens estigmatizantes e preconceituosas que fazem com que a sociedade assuma uma pessoa com uma doença mental como anormal, louca, perigosa, entre outros e que, consequentemente, a rejeite, discrimine e muitas vezes, a marginalize. Assim, com estas representações incorretas e irrealistas, os meios de comunicação social afastam-se daquele que deveria ser o seu papel principal – formar uma sociedade esclarecida, que minimize o estigma que pesa sobre todas as pessoas com perturbação mental. Acabando por contribuir para a perpetuação do estigma associado à saúde mental.

Não nos podemos esquecer que a maior parte das representações criadas pelo público são criadas através dos media (seja através de filmes, programas de televisão ou reportagens) e, como tal, podem exercer um importante papel na redução do estigma, nomeadamente, através da difusão de informação correta e válida sobre o assunto. E é aqui, que todos nós, principalmente quem sofre de algum tipo de doença mental, pode ter um papel importante: podemos dar a nossa opinião, partilhá-la e levá-la a público. A tua experiência, o teu conhecimento, podem mudar mentalidades, por isso, não tenhas receio de os partilhar!

(E não te esqueças: não estás sozinho. Podes contactar connosco para dar voz às tuas experiências, opiniões e sentimentos. Estamos juntos nesta luta contra o estigma!)

Departamento de Pedagogia e Formação – Filipa Mendes, Inês Freitas e Neuza Noronha – 18 de setembro, 2020

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