Sobre suicídio - considerações gerais

         A dor psicológica mascara-se connosco, é tão individual e solitária que só nós a vemos. Não existe propriamente uma fratura exposta, uma ferida aberta observável: vivemo-la dentro de nós, porque a mente também dói. Não “aparece” da noite para o dia, não consiste numa queda. É um conjunto de situações, de vivências, de experiências, que acumuladas se tornam de mais. Cada um responde de forma diferente ao dia-a-dia e a nossa vida psíquica é tão importante quanto a física, com a particularidade de ser “invisível”. Estabelecer limites, dentro de nós, entre o saudável e o que nos ultrapassa, aprender a ouvir as nossas faculdades interiores é um passo para perceber como funcionamos enquanto ser. Mais, perceber que cada um funciona de forma diferente, que os estímulos com os quais somos constantemente bombardeados resultam de maneiras diferentes em cada um de nós, é fulcral para a vivência em sociedade.

            A individualidade da dor psíquica faz com que apenas nós percebamos o que se está a passar dentro de nós. O sofrimento é real e é preciso aceitá-lo. A dor é tão forte que muitos vêm apenas uma saída: o suicídio. Não porque são fracos e não conseguem “esquecer e ultrapassar”, não porque são egoístas e não “conseguem lidar com os seus problemas”. Mas sim porque, dentro do seu mundo, todas as saídas se fecharam e o fim imediato da dor é a opção mais próxima. A dor mental é tão insuportável que esta é a única via de colocar um fim.

            Os pensamentos avassaladores de pôr término à própria vida não vêm do nada, não aparecem porque sim. O foco do ato não é a morte, é sim o fim da dor. O conceito de suicídio começa com ideações aleatórias e vagas até à concretização do mesmo. Como uma semente que vai crescendo no pensamento do indivíduo até que chega a um ponto que essa semente passa a ser uma ideia fixa e consciencializada de que essa será a única saída. Nesta consciencialização temos a passagem a ato, o que antes era aleatório é agora planeado e com um objetivo concreto.

Ninguém morre sozinho. Na realidade, o desejo não é o de pôr fim à própria existência. O objetivo é matar a parte que dói, a vivência, esta que de certa maneira impede a pessoa de viver e de ter prazer pela sua vida. O suicídio reafirma um problema real (individual ou societal). Uma angústia e sofrimento reais. Morrer, é em si uma contradição: viver e morrer ao mesmo tempo. É um querer (ter) que morrer e nascer de outra forma. Não é egoísmo. É um último ato de esperança, como nos fala Vítor Frankl. A decisão está tomada até ao momento antes de se materializar, nesse, há uma acendalha de esperança que se acende fervorosamente de se ser salvo de uma dor que mata, lentamente. Falar sobre morte é falar de uma parte essencial da vida. E até mesmo, para alguém cujo sofrimento é inominável, da dimensão de um buraco negro que nos engole entropicamente. Porque morrer não precisa de ser numa lógica concreta. Às vezes querer morrer e morrer é matar algo que dói e que nos sufoca. Há que haver espaço na nossa sociedade para não ter medo. Não ter medo é o primeiro passo para ajudar. A ajuda profissional com acompanhamento é crucial para o desenvolvimento do indivíduo. O pedido de ajuda é o ato de salvamento, de quem tem forças para uma última tentativa. Encarar a dor psíquica implica mostrar a nossas maiores vulnerabilidades. Ainda que para quem está de fora seja difícil de compreender o porquê desses atos auto-lesivos, até mesmo de tentativas de suicídio, é importante entender que para o outro, esses atos físicos lesivos são o meio de comunicação e libertação de toda a dor psíquica, numa tentativa de controlar sentimentos verdadeiramente avassaladores de anestesia e vazio, libertar tensão e angústia que de outra forma não conseguem.

Para quem é próximo de alguém que está a passar por uma fase mais negra da sua vida, torna-se complicado saber como poder ajudar e como perceber quando as coisas podem estar a chegar a um extremo. Quais são os sinais a que devemos estar atentos? Ainda que não sejam categóricos à totalidade das pessoas com ideação suicida, é comum captar algumas manifestações que podem indicar as suas intenções. Estas podem ser:

– Verbalização de tentar fugir ou escapar da realidade vivida ou de um problema – “não aguento mais”;

– Desejo de deixar de sofrer, quer psicologicamente como fisicamente – pode aumentar o recurso a álcool, drogas e fármacos como forma de escapar da realidade;

– Verbalização de inutilidade, desespero, falta de esperança e de sentido da vida – “não faço cá falta nenhuma”, “estariam melhor sem mim”, “ninguém iria dar pela minha falta”;

– Falar acerca da morte – “já nada importa na minha vida”, “era melhor acabar com tudo”;

– Desejo de voltar a estar com alguém que já partiu;

– Culpa e auto-castigo;

– Comportamentos de risco (impulsivos e desprotetores – não ter em consideração o perigo de uma situação; auto-lesivos – magoar a si próprios);

– Realizar preparativos para a morte: desfazer-se de coisas valiosas, despedir-se como se não voltasse a ser visto, Desejo de reunir com pessoa(s) amada(s), como forma de despedida;

– Mostram ter um plano para cometer suicídio (escrever cartas para pessoas queridas, comprar materiais suspeitos, …);

Então, mas o que é que podemos fazer para tentar ajudar?

Em primeiro lugar é muito importante que o sujeito tenha intervenção psicológica. Está numa fase de grande sofrimento e debilitação da sua vida, e só um profissional pode ajudar eficazmente nesta situação, portanto uma das primeiras tarefas é tentar arranjar essa ajuda. No entanto, as pessoas mais próximas têm um grande papel para tentarem dissuadir e diminuir as probabilidades de cometer o ato. Algumas das estratégias que pode fazer é:

1) Validar o sofrimento – não precisa de já ter passado pelo que a pessoa está a passar para perceber o sofrimento que esta está a viver. Assim, tente nunca o desvalorizar;

2) Tentar compreender os motivos que levam a pessoa a considerar o suicídio como opção;

3) Dar apoio e evitar a solidão– isto pode ser complicado. Nós sabemos que é uma grande pressão e responsabilidade, mas a pessoa precisa de saber que não está sozinha. Que o que quer que esteja a passar, estará sempre alguém com quem possa contar. Muitas das vezes estas pessoas sentem-se completamente sós no mundo e o saberem e verem que existe alguém que está genuinamente presente e disponível para o que quer que seja, é muito importante;

4) Impedir o acesso a materiais possivelmente letais;

5) Mobilizar valores, vínculos, crenças protetoras – ideiais que sabe o sujeito ter-se baseado por eles ao longo da vida e que de alguma forma são protetores de cometer o ato;

6) Pacto de não suicídio – ainda que seja mais realizado por profissionais, pode ser uma boa estratégia imediata para tentar prevenir a tentativa de suicídio. Este pacto passa por um acordo elaborado por ambas as partes (a pessoa que quer cometer suicídio e quem a está a ajudar) em que estabelecem condições para que a pessoa não cometa o ato. Por exemplo, combinar que se sentir uma grande vontade para realizar o ato deve ligar logo a si, independentemente das horas, para poderem conversar e chegar até si.

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