(Des)emprego

Nascemos, crescemos e desenvolvemo-nos. Começamos pela educação e rapidamente chegamos ao mundo adulto, ao mundo do trabalho e do rendimento financeiro. Parece fácil e simples na teoria são fases seguidas de fases; mas cada uma destas fases tem os seus desafios e a sua integração é extremamente pessoal. Ao trabalho acresce a importância e a dificuldade da vida independente, das responsabilidades e deveres da adultez. Ter um trabalho, um emprego, é algo importante na sociedade em que vivemos, é o que nos permite ter um rendimento para podermos viver. No entanto, a sua importância vai muito além do dinheiro que recebemos, de facto o trabalho é essencial para a nossa qualidade de vida.

O emprego está fortemente associado a uma melhoria na saúde mental. Estranho? Então e as dores de cabeça, as cargas de trabalho e as noites mal dormidas? Tudo isto tem impacto na nossa saúde. Com o emprego ganhamos um sentido de identidade, de pertença. É mais fácil de nos “categorizarmos” e, ainda que a palavra pareça má, é importante para o cérebro humano, que funciona com caixinhas separadas de informação, para poder receber tantos estímulos. Esta “categorização” permite-nos desenvolver competências dentro da área e permite que os outros identifiquem mais facilmente onde nos encontramos. Pense: muitas vezes quando nos apresentamos a alguém que acabámos de conhecer, uma das primeiras informações que dizemos é o que fazemos na vida. Isto define-nos. Por este motivo, foi demonstrada uma associação positiva entre ter um emprego e níveis de autoconfiança, autoestima e felicidade mais elevados. Obviamente nem tudo é fácil, há condições de trabalho piores que outras, pessoas mais e menos felizes com o que fazem, e até mesmo períodos de maior insatisfação pelos quais toda a gente passa. Estas períodos de insatisfação refletem-se também na qualidade da saúde mental de cada um, e até mesmo na produtividade laboral. Em situações mais extremas poderá ser mais benéfico para a saúde psicológica o término dessa situação laboral.

Na atualidade, “emprego” e “carreira” nas suas definições tradicionais são conceitos cada vez mais estranhos no nosso dicionário. Atualmente, a variabilidade e mobilidade entre trabalhos é cada vez maior, o que nos permite ter uma panóplia de atividades profissionais diferentes com uma única área de estudos. Independentemente do desenvolvimento das terminologias e da sociedade, o tempo e o espaço são permanentes e cruciais, tanto no trabalho, como na vida. É importante definirmos espaços pessoais, espaços sociais e espaços laborais na nossa vida e tentar que eles não se influenciem demasiado. Isto permite-nos uma adaptação comportamental mais facilitada. Tal como vimos, ter separações ajuda também o cérebro a perceber o contexto da situação sem ser preciso esforço adicional para o fazer.

Porque é que abordar este tema é tão importante? Ainda que a excelente resposta do teletrabalho tenha permitido ao mundo continuar a funcionar durante este período incerto da pandemia, a verdade é que, a linha que separa a vida pessoal, social e laboral ficou tão ténue que a passagem de uma para a outra e a confusão entre contextos passou a ser o dia-a-dia. Passámos de uma casa – vida pessoal – , um escritório – vida laboral – e de um café – vida social, para um único espaço de confinamento durante meses. Nunca foi tão importante criar rotinas e manter horários como agora, dentro de um panorama geral gerido por nós. Uma boa gestão de todas as áreas da nossa vida potencia a saúde mental. Para isto, é muito importante um espaço organizado e um tempo claramente delimitado para as diversas atividades.

E o que podemos fazer para gerir o nosso espaço?

  • Começar por definir horários. Se a hora normal seria das 9h-17h, ainda que com horários flexíveis, tente manter sempre os mesmos.
  • Defina um lugar em casa que use somente para trabalhar. Esse será o seu novo escritório. Quando está lá, a vida pessoal está fora. Abstraia-se do resto do mundo e nesse tempo e espaço, foque-se no trabalho.
  • Vida em casal? Definam espaços separados, não misturem as “vidas” que seriam também separadas noutros contextos.
  • Para o espaço pessoal, crie um ambiente confortável e onde possa descansar. Esse espaço servirá para as suas preocupações individuais. A meditação é aconselhada para respirar e desanuviar, deixar de fora o que não importa.
  • Para o espaço social, converse com os seus amigos e pares. Com o levantamento do confinamento é ainda mais fácil. Com segurança, combine serões de convívio e partilha. Mantenha uma vida social ativa e não se feche.

A pandemia e o confinamento trouxeram novas vivências e adversidades. A normalidade foi completamente alterada e a incerteza dos tempos futuros deixa-nos a todos preocupados. Lembre-se que o seu espaço é seu. O trabalho é trabalho. E na sua vida social, recarregue energias, converse!

Do outro lado da moeda temos o desemprego. Nesta época instável que vivemos, muitos foram os que se viram em situações laborais complicadas, sendo colocados em lay-off, recebendo menos rendimento e, em casos extremos, ficando no desemprego. Esta instabilidade traz vários problemas à vida das pessoas, ainda que cada um lide com a sua situação de forma diferente. Para além das óbvias complicações financeiras, que implicam muitas vezes passar a viver em piores condições, normalmente, há também uma deterioração de outras grandes áreas da vida, como a social, relacional e o próprio bem-estar físico e mental.

São vários os estudos que indicam uma relação entre o desemprego e níveis elevados de mal-estar psicológico, incluindo várias alterações na regulação de sono e apetite, assim como sintomas de depressão, ansiedade e desesperança no futuro, que tendem a aumentar com a idade e tempo de desemprego. Assim como o emprego dá um sentido de identidade a cada um, muitas vezes o desemprego implica a perda dessa mesma identidade. A pessoa começa a percecionar-se de forma mais negativa, algo incompetente, o que tem um impacto enorme na sua autoestima e insatisfação geral com a vida. Isto vai afetar a forma como a pessoa se relaciona com os outros. Há quem sinta falhanço e incapacidade de cuidar do outro, levando a que muitas pessoas se isolem socialmente, o que traz associado um sofrimento psíquico muito grande. Para tentarem escapar de toda a tristeza e solidão que sentem, muitos são os que recorrem a comportamentos de risco para tentar esquecer. Consumo abusivo de álcool é o mais comum, mas outros, como consumo de substâncias ilícitas e a adição de jogo/apostas são algumas das formas usadas para esse escape, mas que, em vários casos, complicam ainda mais a situação.

Em alguns dos casos existem fortes sentimentos de culpa, frustração, desmoralização, chegando mesmo à resignação perante a situação em que se encontra. Consequentemente, verifica-se uma diminuição da autoestima e falta de esperança em si, nos outros e num futuro melhor. Em alguns casos mais extremos esta desesperança e frustração podem resultar em pensamentos e até tentativas suicidas.

Então, o que é que podemos fazer para gerir melhor todos os sentimentos associados ao desemprego?

  • Ver a situação com outros olhos: é natural estar mais desanimado, frustrado e com medo do que o futuro nos reserva, são emoções que fazem parte do processo de conseguir lidar com o que se perdeu. No entanto, podemos ver este momento como uma oportunidade para encontrar soluções que nunca tínhamos pensado anteriormente. Uma mudança de área de trabalho, de carreira, podem ser opções não consideradas e que trazem mais felicidade e satisfação a longo prazo. No entretanto, enquanto essas oportunidades não aparecem, tente olhar para o momento que está a viver como um período de reflexão pessoal. Perceber, verdadeiramente, o que falhou no antigo emprego, o que gostava de melhorara no próximo, o que gostava de fazer para se sentir realizado.
  • Manter-se ativo: aproveite o tempo mais livre que tem para ir em busca de novas atividades que antes não conseguia realizar. Pode ser atividade física, que ajuda a melhorar o humor e diminuir a ansiedade; Fazer voluntariado numa associação com uma causa com que se identifique, estas ideias poderão ajudá-lo a sentir que tem novamente um propósito na vida.
  • Autocuidado: sabemos bem que este é um momento de grande stress, a cabeça não para de funcionar a mil à hora à procura de novas soluções e isso traz consigo um grande desgaste emocional que dificulta o pensamento e boas tomadas de decisão. Já para não falar no impacto que tem no bem-estar psicológico. No entanto, tem que se permitir a ter o seu tempo, para que possa descansar, relaxar e cuidar de si. Apesar de tudo o que está a acontecer, ainda merece tudo o que de bom a vida tem para dar e só assim consegue estar forte o suficiente para poder ir à luta à procura de novas oportunidades!
  • Arranje alternativas ao consumo de álcool/substâncias: em fases mais difíceis da vida, há quem goste de recorrer a substâncias que permitam o esquecimento de tudo o que de pior há na vida. No entanto, este traz apenas um adormecimento temporário e nada benéfico. Pelo contrário, tende a piorar bastante a situação, não só pelo mal direto que faz à saúde física e psicológica, como também, pelos encargos financeiros que no momento podem não ser suportáveis.
  • Se precisar, peça ajuda: não tenha medo, nem vergonha, de pedir ajuda profissional. Quer seja no planeamento e gestão financeira, ou na busca de ajuda psicológica, ambos os serviços existem para ser usados por quem mais precisa, alguns de forma gratuita ou a baixo custo.

O desemprego não tem de ser sinónimo de fim de vida. É uma etapa complicada, em que vai necessitar de alguns novos recursos para ser ultrapassada, mas é possível! Para muitos, pelos mais diversos motivos, é o início de uma fase mais desafiante, mas mais satisfatória a longo prazo pois permite ir à procura de melhores condições e oportunidades.

“No meio da dificuldade, encontra-se a oportunidade” – Albert Einstein

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa e Maria Ana Coelho – 26 de agosto, 2020

 

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