Individualidade nos relacionamentos

O Ser Humano foi “construído” como um ser social, com necessidades básicas de intercomunicação e desenvolvimento interpessoal. No nosso cerne somos nós, a nossa individualidade mais básica e simples, a nossa construção do ser. Mas esta construção não se faz sozinha, faz-se em torno de uma rede de apoio, de relações significativas, de laços afetivos fortes e consistentes. É importante vivermos com outros!

E porque é que é tão importante este ambiente social que nos rodeia?

Para começar, mesmo no início da vida, são os nossos laços vinculativos que nos fazem ganhar autonomia. Têm um papel crucial no nosso desenvolvimento psicossocial de interação com outros! Mais tarde, com ganho de autonomia, desejos e valores próprios, começamos a procurar pares que nos satisfaçam. Ainda que pareça egoísta dito desta forma, procuramos nos outros coisas com que nos identificamos. Aqui nascem as relações de pares e do meio social independente, conforme os nossos “critérios”. Os nossos amigos passam a ser a nossa rede de apoio mais pessoal

E depois dos amigos?

Com o ganho de consciência sexual e desenvolvimento psicossexual, o conhecimento do corpo, do outro e, mais importante, o conhecimento de nós próprios, procuramos laços românticos, a necessidade da sexualidade é cada vez mais forte e forma-nos enquanto seres sexuados. Tudo isto ocorre dentro de um desenvolvimento normativo. As relações são extremamente importantes para a identificação pessoal, para a capacidade de relacionamento pessoal e interpessoal.

E nós, onde ficamos neste desenvolvimento relacional?

É importante que nunca nos esqueçamos que na base do relacionamento estão duas pessoas individuais. Com vidas comuns e similares, com gostos semelhantes, MAS individuais. Este conceito de individualidade e espaço próprio nunca deve ser quebrado. A minha liberdade acaba quando interfere com a liberdade do outro.

Então, serão estes dois conceitos de relações e individualidade mutuamente exclusivos? Há várias perspetivas. Há quem considere que não é possível manter a nossa identidade numa relação, que há uma mudança em relação ao que o outro quer. Há quem ache que não pode mudar nada ou então a sua identidade perde-se na relação. Também há quem considere que uma relação se faz da fusão dos integrantes. Por último, há ainda quem afirme que que essa mesma identidade se vai desenvolvendo ao longo da relação, em comunhão com o que já existia antes.

Há quem considere que dar razão ao outro, dar o braço a torcer, são indicativos de perda de identidade, de cedência ao outro. É necessário quebrar esta ideia tão enraizada e perceber que dar razão é admitir que a outra pessoa também pode estar certa, que a sua perspetiva também é tão válida quanto a nossa e que isso não significa que estejamos a perder a nossa essência.

É importante quando nos juntamos numa relação, especialmente amorosa, não perdermos a nossa individualidade e aquilo que nos torna seres únicos. A verdade é que, há uma tendência natural para nos envolvermos tanto na relação e no outro que vamos deixando a nossa essência passar. Não é que nos anulemos, mas tendemos a fazer mais coisas que a outra pessoa gosta, passar mais tempo com ela e é fácil ficarmos para segundo plano. Pode também surgir uma certa dependência do outro, necessidade de estarem constantemente juntos ou de não saber o que fazer sem o outro, esquecendo-nos que houve todo um período em que éramos só nós.

Isto tem vindo a ser um impedimento para muita gente entrar em relacionamentos sérios, uma vez que, as gerações mais novas tendem a ver o compromisso como uma perda de si mesmo para o outro.

No entanto, tem-se vindo a perceber que manter a individualidade e ter tempo para nós quando estamos num relacionamento é bom, tanto para a saúde mental do próprio, como para o desenvolvimento saudável do casal. É comum ao longo dos anos que a monotonia, acomodação e até alguma falta de excitação comece a fazer parte da relação e aí pode surgir uma sensação de vazio, de que algo não está bem. Mas se mantivermos a nossa individualidade e tempo sozinhos vamos poder contornar este tipo de obstáculos de forma benéfica, mantendo a segurança e serenidade na relação.

Um relacionamento amoroso passa pelo crescimento de algo novo com outra pessoa, o amor partilhado, o interesse em conhecerem-se e quererem seguir juntos para o futuro. No entanto, não nos podemos esquecer que para podermos estar bem com o outro temos de estar bem connosco.  Querer manter individualidade na relação não significa egoísmo ou que se gosta menos do outro, mas sim uma forma de respeito próprio e para com o outro, para dar espaço e oportunidade de serem exatamente quem são, em comunhão, aceitando as diferenças.

Mas manter a individualidade não significa que não se façam mudanças pelo outro ao longo da relação. Estar em relação é perceber que há adaptações que têm de ser feitas em prol do outro, para o bem-estar e conforto de ambos, mas isso não coloca a nossa individualidade em risco, apenas mostra que estamos seguros o suficiente para percebermos o que devemos/podemos ou não modificar, assim como o amor e dedicação pelo outro.

Assim damos algumas dicas para conseguires sentir-te tu mesm@ na tua relação, sem achares que estás a colocar em causa a tua identidade:

  • Tira tempo para ti e só para ti: encontra atividades que não incluam o teu par. Dar um passeio, fazer exercício, ler, arranjar um hobby novo ou ir sair com os teus amigos podem ser algumas das sugestões. O que sugerimos é que periodicamente (por exemplo, uma vez por semana) tires esse tempo para ti. Não precisa de haver uma exclusão total do outro, apenas algo que gostam de fazer e que seja só vosso individualmente (bónus: é um ótimo tema de conversa porque podem partilhar o que fazem nessa atividade, o que sentem por a estar a fazer e dar a conhecer mais os vossos interesses e gostos – e todos sabemos que dá jeito encontrar mais temas além dos típicos “como foi o teu dia? Como foi o trabalho/escola?”)
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  • Ter um espaço teu: quando se partilha casa é fácil haver uma fusão de tudo o que lá se encontra, não havendo bem uma separação do que é de cada um. Isto fica ainda mais difícil quando falamos de encontrar um espaço físico que possas chamar de TEU e que seja o teu refúgio para tudo o que precisares: trabalhar/estudar; espairecer um bocadinho, etc. O ideal seria em divisões da casa diferentes, mas nem sempre é possível, por isso tenta encontrar uma forma de separarem esse local para que ambos se sintam à vontade e possam ter o vosso espaço pessoal.
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  • Respeitar o tempo e espaço do outro: assim como tu precisas deles, o teu par também precisará. Se queres ter esse tipo de espaço tens que permitir que o teu par também o tenha, sem constrangimentos. Com confiança e à vontade este tipo de práticas torna-se natural na vossa rotina e como ambos o têm podem compreender-se melhor um ao outro.
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  • Falar sobre as vossas opiniões e sentimentos; duas palavras chave: comunicação e empatia. Para qualquer bom relacionamento funcionar ambos têm de estar presentes de forma constante e isso nem sempre é fácil, principalmente quando as opiniões ou desejos de ambos diferem e ninguém quer dar o braço a torcer. Assim, é necessário calma e capacidade de explicar o porquê de terem aquela atitude/desejo/opinião e ouvirem o que o outro tem a dizer da sua perspetiva. E não esquecer, nem sempre as opiniões, ainda que diferentes, são mutuamente exclusivas. Encontrar uma forma de equilíbrio e compromisso é fundamental em qualquer relação e assim permitem também que a vossa voz e identidade sejam preservadas.

Lembra-te que tu és tu e não a relação. São duas pessoas que se identificam num nível mais profundo e desenvolvem uma vida conjunta. Sermos nós próprios é a chave mais importante para uma relação saudável; a empatia, a confiança, o espaço próprio são ingredientes cruciais para a construção relacional. Estabelece limites saudáveis e que ambos concordem, é um acordo conjunto que deve funcionar para ambos e não só para um dos pares. Aproveita todos os momentos felizes e conversa abertamente sobre as tuas necessidades e valores!


Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa e Maria Ana Coelho – 13 de agosto, 2020

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