Perturbação de Stress Pós-Traumático

Durante muito tempo a Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT) foi apenas associada aos veteranos de guerra – indivíduos constantemente expostos a situações de extrema violência. Passou, depois, a ser associada a situações de catástrofe e/ou que representassem perigo de vida para quem as vivia. Hoje em dia, reconhece-se que não é preciso estar envolvido numa situação de catástrofe ou perigo de vida para se vivenciar algo como traumático e basta que, de alguma forma e por um qualquer motivo, o nosso organismo se tenha sentido impossibilitado ou incapaz (física e/ou emocionalmente) de lidar com uma determinada situação. No ambiente imprevisível e em constante mudança em que todos vivemos (acentuado pela situação de pandemia) falar em Perturbação de Stress Pós-Traumático torna-se essencial!

A Perturbação de Stress Pós-Traumático trata-se de “uma reação intensa, prolongada e retardada a um evento (de curta ou longa duração) excecionalmente stressor ou ameaçador”. Dito de outra forma, a PSPT é uma perturbação psicológica que se pode desenvolver em resposta à exposição a um evento traumático, como por exemplo acidentes de viação, catástrofes naturais, guerras, agressões sexuais, entre outros atos de violência.

O evento traumático é, portanto, a principal (e necessária) causa da PSPT, no entanto nem todas as pessoas que experienciam uma situação traumática desenvolvem esta perturbação. As reações a acontecimentos potencialmente traumáticos são diferentes de pessoa para pessoa – perante o mesmo acontecimento há pessoas que o podem sentir como traumático enquanto que outras não. Isto acontece porque um aspeto determinante do desenvolvimento da perturbação se relaciona com a avaliação, o significado e o impacto que o acontecimento traumático tem para quem o vivenciou. Assim, percebemos que, para além do acontecimento traumático, é extremamente importante a forma como são geridas as emoções sentidas. Na maioria das vezes, esta dificuldade em gerir as emoções é a base do surgimento e desenvolvimento da PSPT. Posto isto, podemos considerar a Perturbação de Stress Pós-Traumático uma resposta mal adaptativa a um evento stressor excecionalmente marcante, que leva à perturbação do funcionamento pessoal e social.

Algumas das situações mais comuns que podem desencadear Stress Pós-Traumático são testemunhar ou vivenciar situações de morte, de risco de vida ou de ameaça para a integridade física (incluindo acidentes, desastres naturais, crime violento, doença grave, internamento em cuidados intensivos, combate militar, abusos/maus tratos físicos e sexuais, assalto ou violação). A maior parte dos casos de Stress Pós-Traumático é despoletado por experiências pessoais, no entanto, também pode surgir como reação depois de testemunhar a ocorrência de situações traumáticas a terceiros. Em Portugal a PSPT atinge 1 a cada 12 portugueses, sendo a segunda doença psiquiátrica mais recorrente na população, apenas atrás da depressão.

De seguida, apresentamos-te alguns dos sintomas mais frequentes associados à PSPT, com base nos critérios de diagnóstico do DSM-5:

  • Lembranças perturbadoras, intrusivas e recorrentes do acontecimento que incluem imagens, pensamentos ou perceções;
  • Sonhos perturbadores recorrentes acerca do acontecimento;
  • Atuar ou sentir como o se o acontecimento traumático estivesse a ocorrer de novo (sensação de estar a reviver a experiência, ilusões, alucinações e episódios de flashback);
  • Evitamento persistente dos estímulos associados com o trauma;

Se passaste por uma situação traumática recentemente, há sintomas mais gerais que também podem ser indicadores de PSPT, entre eles: sentir-se desligado ou estranho em relação aos outros, expectativas encurtadas em relação ao futuro, dificuldade em adormecer, irritabilidade, dificuldade de concentração, resposta de alarme exagerada.

Não te esqueças que existem muitas situações capaz de traumatizar o ser humano. Pensemos num pequeno trauma físico pelo qual todos já passamos: estamos a andar distraidamente e batemos com a perna na cadeira. Dói, no dia a seguir vamos ter uma nódoa negra e uma ligeira dor que com o tempo vai passando. Imaginemos outra situação: estamos a correr a grande velocidade, caímos e partimos a perna – além de doer muito mais, o tempo de recuperação também vai ser maior e, durante esse tempo, a nossa vida ficará afetada pelas limitações impostas pela lesão. Há até quem fique com sequelas para toda a vida, que os recordam do quão doloroso foi o momento da queda, principalmente, se não tiverem sido cuidadosos no processo de recuperação e tratamento. Para se protegerem da dor que alguns movimentos posteriormente ainda possam causar irão adotar comportamentos diferentes.

No trauma psicológico acontece exatamente o mesmo: acontece uma situação com a qual não estamos preparados para lidar e o organismo reage com dor e tenta reequilibrar-se. Tal como no exemplo da perna, pode ser uma reação que se termina passados uns dias ou, se for mais grave, demore um pouco mais. Porém, o impacto pode ter sido tal, que as suas consequências vão permanecer durante muito tempo, caso não exista uma intervenção que ajude o organismo a recuperar. Por isso, se sentes que passaste por uma situação excecionalmente stressora, que te causou algum tipo de mal-estar (seja uma nódoa negra, ou uma perna partida), não desvalorizes! Procura ajuda, a recuperação será mais fácil e poderás evitar sequelas para a vida toda. Se não deixamos uma perna partida curar-se sozinha, por que razão tentamos fazer isso com o nosso cérebro?

Departamento de Pedagogia e Formação – Filipa Mendes, Inês Freitas e Neuza Noronha – 4 de agosto, 2020

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