Luto

Falar de luto é, também, falar de uma luta. Luta essa que nem sempre é justa ou percecionada como algo que é necessário. Falar de luto é, também, falar de morte – essa que faz parte, inevitavelmente, da vida.

Nós, pessoas temos um hábito extraordinário. E, esse hábito é o de não falarmos sobre a morte – ao não falarmos, é como se nos estivéssemos a esconder, por debaixo de um manto invisível que nos mantém protegidos e, que no momento certo podemo-nos revelar ao mundo, sem esse manto protetor, e escolher morrer ou não morrer, partir ou ficar.

Este hábito, o de não falar sobre temas como a morte, faz parte da nossa fragilidade. Confrontarmo-nos com essa fragilidade, essa nossa limitação leva-nos a sentir coisas que nos fazem doer muito.

Quando a morte bate à nossa porta e leva qualquer coisa de nós, abre uma ferida. E, essa ferida, acompanha-nos.

O luto é um processo. Diferente para cada um de nós. Que tem em conta toda a nossa história. A maneira como o fazemos é comparada a um relógio e tempo únicos. Não há como acertar a hora para menos dor.

Podemos ter vários tipos de morte que levam, necessariamente, a diferentes tipos de luto. A morte é a perda. E a perda, pode ser experimentada de várias formas como separações, morte efetiva de alguém significativo, perdas de qualquer ordem, morrer aos olhos dos outros, desilusões, morte de ideais ou projetos e, podíamos continuar…

O(s) luto(s) são uma realidade muito exigente e muito dura. São um “mal” necessário que tem como objetivo podermos (e sabermos) como nos representar sem aquilo (ou o alguém) que perdemos.

Quando há a constatação de uma perda inicia-se um processo complexo e, por vezes, de difícil adaptação, caracterizado por um conjunto de reações físicas, emocionais e pensamentos.

A vivência do processo de luto varia em termos de intensidade, durabilidade (tempo que duram as reações derivadas do luto) e reatividade (tempo de reação entre a perda e início do processo), mas nenhuma é considerada mais certa que outra, e todas devem ser respeitadas.

É importante referir que o luto não é uma condição patológica mas sim, uma experiência que deve ser vivida e gradualmente ultrapassada para que se possa lidar com a perda de forma saudável e dar continuidade à vida sem grandes interferências relacionadas. Com isto não queremos dizer que se deve esquecer o objeto alvo de perda, nem saudável significa feliz, ou sem sofrimento. O processo nem sempre é fácil e é normal ocorrerem mudanças temporárias em vários aspetos da nossa vida. Os sintomas mais comuns refletem-se em alterações no humor, (maior sensação de raiva, culpa, tristeza, hostilidade para com os outros, momentos de choro e dor intensa), ansiedade, negação temporária da perda, perde de interesse de situações sociais ou anteriormente apreciadas e recordação constante de momentos com o objeto alvo de perda. O importante é que a pessoa se permita a sentir todo este tumulto de emoções, sem os reprimir ou abafar, para que, gradualmente, consiga aceitar e integrar essa perda nas suas vidas e adaptar-se a novas realidades, sabendo que a saudade e a tristeza podem permanecer de forma pacífica em si.

Quando esta aceitação e vivência de sentimentos é negada pela pessoa, tentando não exprimir sensações normativas do luto, pode dar-se o caso de desenvolver um luto patológico. Este acontece quando, durante um período prolongado, há uma negação da realidade e de que a perda ocorreu. Este tipo situação é observável através da incapacidade de falar na morte, falar da pessoa como se ainda estivesse vivo, não tem qualquer tipo de alteração no seu quotidiano, podendo passar para os outros uma imagem de frieza, falta de respeito e de sensibilidade para com a memória do que morreu e pelos restantes enlutados. O outro extremo é a continuação prolongada de reações exageradas de luto, ou seja, comportamentos despropositados que são normativos numa fase inicial do processo, mas pouco adequados posteriormente. Este tipo de luto pode acabar por desenvolver de forma mal adaptativa, estabelecendo-se um luto crónico, o sofrimento que se sente parece nunca ter um fim – resulta da incapacidade de estruturar a morte na sua vida e de se adaptar ao evento. Normalmente ocorre quanto a morte se torna um acontecimento traumático da vida da pessoa e depende da capacidade psicológica que a pessoa desenvolve para se lidar com a situação.

Num processo normativo de luto, os sentimentos intensos tendem a diminuir, gradualmente, com o passar do tempo e com o apoio de familiares e amigos, que são fundamentais para uma integração saudável da perda. No entanto, em casos mais graves de luto patológico ou crónico este tipo de apoio deve ser complementado por ajuda profissional, psicológica e/ou psiquiátrica, para que se possa fazer uma avaliação devida da situação e perceber que tipo de estratégias seguir para ultrapassar o problema.

Há quem diga que quando se perde, algo ou alguém, também, perdemos um bocadinho de nós. Há quem perca a cara-metade e há quem perde metade da cara. No final das contas, somos o que “a relação com os outros de nós fez” e com a morte e com a perda significativa também “vai um pouco de nós”. Resta-nos saber como nos vamos representar e ver sem o que perdemos. Este é o objetivo último do luto. É um processo de cicatrização.

É importante que nisto tudo não nos esqueçamos de manter o nosso autocuidado, físico e mental, para que este não se deteriore em demasia num momento como estes e há pequenas coisas que podemos fazer para melhorar a capacidade funcionar no dia a dia. Assim, deixamos alguns conselhos (e claro, se for demasiado pesado, não hesitar em pedir ajuda especializada):

  • Descanso – é normal que sinta a necessidade de se manter ocupado para evitar pensar na morte, no entanto é importante dar tempo para abrandar e relaxar, de modo a conseguir renovar a energia e tornar-se mais produtivo.
  • Convívio – como já dissemos, o apoio de amigos e familiares é extremamente importante no período de luto e não devemos isolar-nos do mesmo. Há pessoas que sentem pouco confortáveis pois acham que após a morte de alguém próximo é desrespeitoso sair e conviver, no entanto temos de tentar eliminar este tipo de estigma. Cada um tem a sua forma de viver o luto e pode ser benéfico permitir-nos receber o carinho e afeto das pessoas que nos fazem sentir bem
  • Atividade física – mente sã em corpo são, é o mote para esta estratégia. A prática permite distrai-se do sofrimento causado pelo luto, libertando alguma tensão e mantendo-se ativo.
  • Falar sobre o luto – não deve ter medo ou vergonha de falar sobre a sua experiência de luto. Muitas das vezes isto permite também uma melhor compreensão pessoal e dos outros sobre o que está a vivenciar e assim torna-se mais fácil poderem ajudar no que precisar. Se vir que não se sente confortável a falar com amigos/familiares, tente procurar ajuda profissional. Lembre-se, a sua saúde mental deve estar em primeiro lugar e apenas falar pode fazer uma grande diferença.
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