Perturbações Alimentares

Todos já ouvimos falar de pessoas, principalmente jovens, que restringem a sua alimentação exageradamente, com o objetivo de chegar ao “corpo ideal”. A maioria de nós já terá tido contacto com uma pessoa próxima com a ideia de fazer uma dieta pouco saudável, para tentar conseguir um corpo semelhante ao daquele modelo que segue nas redes sociais. Atualmente, e tendo em conta a crescente importância das redes sociais e dos media em geral que continuam a semear a ideia do “corpo perfeito”, as perturbações alimentares são cada vez mais um tema de preocupação.  

As perturbações alimentares são doenças do foro psicológico que conduzem a comportamentos alimentares anómalos e radicais. Estes comportamentos podem traduzir-se no consumo insuficiente de alimentos para satisfazer as necessidades do corpo humano (como é o caso da anorexia), mas também no consumo excessivo (bulimia).  Para além de alterar os comportamentos alimentares, as perturbações alimentares também alteram os pensamentos e sentimentos que a pessoa tem relativamente à comida. São, desta forma, perturbações de natureza física e emocional que podem colocar a vida em perigo. Importa ainda referir que as perturbações alimentares têm, geralmente, um aspeto em comum: uma preocupação exagerada relativamente ao peso e, para além disso é também comum que os distúrbios alimentares surjam associados a outros distúrbios, como ansiedade, pânico, perturbação obsessivo-compulsiva e problemas de abuso de álcool e drogas.

Existem vários distúrbios alimentares, sendo que a anorexia e a bulimia são os mais comuns e, portanto, optamos por abordar mais profundamente estes dois.

Anorexia

A anorexia, ou anorexia nervosa, é um distúrbio alimentar e psiquiátrico, caracterizado por uma distorção da imagem de corporal, com um medo extremo de engordar e a incapacidade de manter um peso mínimo normal. As pessoas que sofrem com esta patologia percecionam-se como estando gordas, mesmo quando, na realidade, se encontram extremamente magras.

Esta obsessão com a perda de peso, faz com que as pessoas recorram a dietas restritivas, que resultam em perdas significativas e abrutas de peso com grande impacto a nível físico, podendo dar origem a queixas de obstipação, dor abdominal, amenorreia, fraqueza, intolerância ao frio, bem como alterações hormonais como o cessamento da menstruação. Já a nível psicológico, é frequente que pessoas que sofrem deste distúrbio manifestem sintomas como tristeza, baixa autoestima, isolamento social, irritabilidade, ansiedade. A anorexia tem, portanto, um grande impacto na bem-estar do indivíduo, tendo implicações não só a nível físico, mas também psicológico e social.

 A anorexia nervosa começa, geralmente, na adolescência, sendo que em cerca de 95% dos casos atinge o género feminino. Em Portugal, estima-se uma prevalência de anorexia nervosa na ordem dos 0,3% a 0,4% – embora possa não parecer uma prevalência elevada, os dados revelam um outro lado deste problema: ocorrem formas parciais da doença em 12,6% das adolescentes, cerca de 7% apresentam uma perturbação da imagem corporal e 38% com peso normal referem querer emagrecer. Estes números, todos eles referentes a Portugal, merecem a nossa atenção especial!

Não nos podemos esquecer que uma das características das pessoas que sofrem deste problema é negar a existência do mesmo, o que revela a importância das pessoas (amigos, familiares, colegas) estarem atentas ao comportamento e auxiliar na procura de ajuda. Para ajudar na deteção destes casos, deixamos-te alguns dos sinais de alerta da anorexia:

         – Perda excessiva de peso;

         – Recusa em comer;

         – Não admitir que se tem fome;

         – Preocupação constante com temas relacionados com o peso, comida, etc.

         – Prática excessiva de exercício físico;

         – Sintomas de depressão e isolamento social.

A melhor forma de prevenir a anorexia passa pela rápida identificação dos sintomas e a sua pronta correção. Se te identificas com o anteriormente exposto ou acreditas que alguém próximo de ti pode estar com este problema, não hesites em pedir ajuda. Estamos perante uma perturbação do foro psicológico e, como tal, merece um acompanhamento personalizado que quanto mais cedo começar, mais eficaz será!

Bulimia

No que diz respeito à bulimia, ou bulimia nervosa, segundo o DSM-V, esta perturbação alimentar caracteriza-se por episódios recorrentes de ingestão alimentar compulsiva, seguidos de um comportamento compensatório inapropriado recorrente, como o vómito induzido, o uso de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos, bem como jejum ou exercício físico excessivo. Os episódios acima referidos, habitualmente ocorrem num curto período de tempo e são ingeridas grandes quantidades de alimentos, quantidades estas muitos superiores ao que a maioria das pessoas ingere num período de tempo semelhante.

Um aspeto importante sobre a bulimia nervosa, que a distingue da anorexia nervosa é o facto da diminuição do peso corporal ser pouco notável, uma vez que os comportamentos compensatórios ocorrem após os episódios de compulsão alimentar, havendo assim um equilíbrio no peso. 

Da mesma forma que a anorexia, também a bulimia tem um impacto muito negativo tanto a nível físico como psicológico. A nível físico podem ocorrer alterações hormonais, levar à anemia e a existência de problemas de estômago, entro outros. Já a nível psicológico, é comum que pessoas que sofram de bulimia desenvolvam quadros depressivos e de ansiedade, sentimentos de vergonha e culpa e, para além disso, tem também impacto ao nível da autoestima e prejudica a vida social do individuo.

À semelhança do que acontece na anorexia, estes comportamentos são realizados em segredo e as pessoas que sofrem desta perturbação não tendem a admitir a existência do problema. Desta forma, para te auxiliar na deteção destes casos, deixamos-te também alguns dos sinais de alerta da bulimia:

        – Mudanças frequentes de peso (perda ou ganho);

        – Sinais de danos provocados pelo vômito (inchaço em torno das bochechas, cicratizes e calos nas mãos);

        – Preocupação constante com temas relacionados com o peso, comida, etc.

        – Baixa autoestima, sentimentos de vergonha, autoaversão ou culpa, particularmente depois de comer;

        – Comer escondido e evitar refeições com outras pessoas;

         – Idas frequentes à casa de banho durante ou após a refeição (para vomitar).

Como podemos ver, as perturbações alimentares, nomeadamente a anorexia e a bulimia, são bastantes prejudiciais à saúde, física e psicológica e, como tal, serem identificadas precocemente é premente para que exista uma intervenção eficaz. Vivemos num mundo que, infelizmente, continua a criar a ilusão de que é possível atingir o “corpo perfeito”, mas não te esqueças que isso não existe! – se estás com problemas de autoestima, se não te sentes bem com o teu corpo, ou se te identificas com os sintomas das perturbações que falamos não hesites em pedir ajuda. Se desconfias que alguém que conheces sofre de um distúrbio alimentar, não desvalorizes o problema – o apoio, o suporte e o diálogo são ferramentas eficazes para incentivar a procura de ajuda.

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Filipa Mendes, Inês Freitas e Neuza Noronha – 03 de Julho, 2020

Copyright © 2019 Pacifico. Developed by OvaTheme