Transtorno da Ansiedade Generalizada

   O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) faz parte daquilo a que chamamos perturbações de ansiedade. As perturbações de ansiedade são as respostas que temos face a uma avaliação que fazemos da realidade, ou seja, do mundo que percecionamos. Estas manifestações ocorrem de uma avaliação que a pessoa faz, de forma errada e distorcida, do que a rodeia. A maneira como pensamos vai afetar a maneira como nos sentimos e, por consequência, isto irá influenciar a maneira como vamos agir. Esta é a lógica para que possamos compreender a ansiedade, as perturbações de ansiedade e, em particular, o TAG.

   Vamos começar pelo início: a ansiedade é uma experiência subjetiva (diferente para cada um de nós) e, também, é uma resposta a uma emoção básica: o medo, que se expressa e é visível através do nosso comportamento. O medo desencadeia várias reações: físicas, comportamentais e psicológicas. Estas reações, ou sintomas, são formas de comunicar o que se passa connosco, ou o nosso corpo a tentar falar connosco numa linguagem que muitas vezes não sabemos interpretar, porque é muita informação para processar ao mesmo tempo. O que sentimos é muito intenso e há uma perceção de ameaça – uma situação que sentimos como ameaçadora e perigosa para nós, mesmo que não o seja na realidade (é a isto que chamamos uma avaliação distorcida ou errada da realidade que nos rodeia e envolve). A interpretação errada da realidade desencadeia respostas “desadequadas” da nossa parte (e estas afetam as nossas tomadas de decisão, o nosso comportamento e as nossas relações) e é uma realidade que nos pode incapacitar e reduzir a nossa qualidade de vida, já para não falar de que se estende por todas as dimensões da vida de uma pessoa podendo mesmo levá-la a isolar-se por sentir que não é compreendida, e porque o isolamento parece ser “mais confortável” e mais protetor face a um medo permanente (que já sabemos que é uma interpretação errada). Então, o TAG é uma realidade e é uma perturbação de ansiedade. A experiência de viver com o TAG é uma experiência onde a pessoa vive, permanentemente com preocupação, pensamentos acelerados e invasivos ou intrusivos (aqueles pensamentos que muitas vezes nós sentimos como sendo mais negativos e que não conseguimos bloquear facilmente ou não conseguimos bloquear de todo). Como é que podemos saber se aquilo que se passa connosco pode ser TAG? O TAG engloba 6 sintomas associados que o caraterizam (numa prevalência mínima necessária de 6 meses): 

      1.  Agitação nervosismo ou tensão interior

      2.  Fadiga fácil

      3.  Dificuldades de concentração ou mente vazia

      4.  Irritabilidade

      5.  Tensão muscular

      6.  Perturbações do sono (dificuldade em adormecer, permanecer a dormir, sono insatisfatório).               

   A preocupação passa a ser um estado constante na vida do indivíduo que tem muita dificuldade em controlá-la, causando problemas em áreas básicas e importantes do funcionamento como social e ocupacional de tal forma que é como se a vida e o viver ficassem comprometidos à experiência atual.                Mas, porque é que isto se passa comigo?”. Para podermos responder a esta pergunta e, principalmente, quando o nosso sofrimento é muito grande ao ponto que afeta o nosso dia-a-dia, devemos procurar ajuda técnica especializada (psicoterapia, psicologia e em alguns casos terapia medicamentosa) não só para nos ajudar a lidar com os sintomas, mas, sobretudo, para percebermos o porquê de isto estar a acontecer. Muitos autores e investigadores dos campos da psicologia, da psiquiatria e da etologia (ciência que estuda o comportamento humano e não-humano), chegaram à conclusão de que a realidade do TAG pode ser explicada pela qualidade das relações e dos vínculos. Ou seja, que a experiência negativa do mundo como um lugar perigoso advém de experiências de ligações (vínculos) inseguros ou ansiosos com cuidadores importantes (p.e. mãe e pai). Vamos ver algumas: 

   – Relações ambivalentes com cuidadores (pais que não permitiram segurança e que as suas ações “baralhassem” por não serem coerentes e consistentes levando assim à imprevisibilidade);

      – Histórias de superproteção (impedindo assim que os filhos possam ganhar certas defesas);

      – Histórias de uma certa negligência emocional (p.e. não reconhecimento / validação dos seus filhos);

      – Historial de ansiedade dos cuidadores.

   Tudo isto, segundo a literatura, pode levar ao aparecimento de TAG. Mas, como é que isto que pode ter acontecido connosco no passado pode afetar como me sinto no presente? Aqui entra o papel da memória, principalmente de uma memória mais emocional e, também, a nossa tendência para repetirmos padrões de relação que tivemos (ou sempre tivemos desde a nossa infância). As formas como nos relacionamos com ou outros e as formas como os outros se relacionam connosco têm que ver, exatamente, com a forma como nos apegamos e nos ligamos (vinculação) aos outros. O amor define-se por dar e receber. E onde há amor não há patologia. Assim, quando há histórias e experiências de insegurança crescemos e desenvolvemo-nos enquanto pessoas inseguras e ansiosas. No TAG, particularmente, este passado contribuiu para uma visão ameaçadora do mundo, medo das relações que podemos estabelecer com outras pessoas, dúvidas relativamente à nossa competência (não acreditamos em nós mesmos ou temos mais dificuldade), a preocupação excessiva e que pressiona é a forma como afastamos os pensamentos (do passado, mais emocionais, mais dolorosos) da nossa mente (e fazemos isso de uma maneira que não é consciente para nós), esta preocupação surge também como uma forma de procrastinar (de adiar) e, o TAG, pode ainda contribuir para um certo pensamento “mágico” ou seja, de que se nos preocuparmos com um resultado mau estamos a contribuir para que ele não aconteça – antecipação como forma de prevenção (o que muitas vezes nos impede de usufruir do presente por estarmos demasiado concentrados no futuro). A ansiedade, seja qual for a forma que ela assuma, é sempre um viver à margem do presente. O corpo está aqui e agora, mas a cabeça, a mente, está no futuro e a divagar. E, viver no futuro é imprevisível. E, a imprevisibilidade traz-nos uma preocupação constante, excessiva e que nos pressiona. De que forma podemos perceber isto? Vamos ver:

      – Estarmos focados em problemas mais distantes e não nos problemas do agora;

      – Termos a perceção do pouco controlo da realidade e ou influência sobre a situação (que nos é possível controlar);

      – Estarmos mais focados na emoção negativa (associada com a situação que nos preocupa);

      – Impossibilidade de nós aceitarmos alguma solução porque pensamos que não vamos ter sucesso);

      – Procura incansável por segurança e certeza de resultados;

      – Processamento exagerado e limitado de ameaças potenciais – tendência para catastrofizar (“pessoas muito negativas”);

      – Perceção de desamparo para enfrentar o situação de preocupação;

      – Sentirmos grandes níveis (intensidade) de ansiedade ou angústia.

   Tudo isto é desgastante, não é? Mas de que forma podemos tornar isto mais tolerável para nós? Deixamos-vos algumas dicas:

      – Permite-te a deixar fluir a preocupação, ou seja, deixar que ela siga o caminho que tem de seguir (sem que te preocupes com isso!);

      – Arranja, ou participa, em alguma atividade que te distraia, te relaxe e que permita focares-te em emoções mais positivas;

      – Relativiza as situações (aceita e relativiza);

      – Pratica meditação e mindfulness – permitindo assim que te reconduzas a ti próprio, envolvendo-te no que estás a experienciar dentro e fora de ti e de forma a que possas prestar atenção à experiência do momento presente, aceitando-a tal como ela surge e sem a julgar.

   Mas claro, não esquecendo que a ansiedade não define quem somos e que é uma realidade e preocupação real. O que significa que o TAG também o é. Se estás em sofrimento e precisas de uma maior compreensão do que se passa contigo, não hesites em procurar ajuda especializada.

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa, Maria Ana Coelho e Soraya Morais – 23 de Junho, 2020

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