Privação do Sono

Todos nós sentimos necessidade de descansar. Afinal, o nosso corpo, apesar de tão complexo, não é uma máquina e precisa de repor as suas energias. Crescemos a ouvir que o ideal é dormir oito horas por dia, mas parece que a uma certa altura descartamos essa necessidade – os estudos, o trabalho, os filhos, e todas as demais atividades que estamos envolvidos, fazem parecer as 24h do dia curtas demais para se fazer tudo e acabamos por considerar que dormir é quase uma perda de tempo.  Mas que consequências é que isso pode acarretar? 

Com certeza que todos já tivemos uma noite mal dormida, e com certeza que o dia a seguir não nos agradou. Certamente que é comum ouvirmos amigos, colegas de trabalho, faculdade ou escola a lamentar-se por terem tido uma péssima noite de sono (principalmente nas fases de mais stress). Mas, e quando deixa de ser apenas uma noite mal dormida? E quando se torna um problema, que consequências tem para a nossa vida? É isso que abordamos hoje. 

O sono é um elemento fundamental para a recuperação física e psicológica do ser humano, sendo um processo fisiológico essencial para a saúde e bem-estar geral. Podemos dizer que a principal função do sono é o restauro metabólico do cérebro – uma vez que se caracteriza, especialmente, pela suspensão temporária da consciência e pelo relaxamento dos sentidos e dos músculos, o sono permite uma restauração física e protege-nos do desgaste das horas acordadas. Em suma, para pensarmos, trabalharmos e agirmos, não podemos dispensar um regime de descanso saudável. 

A privação do sono prejudica seriamente os processos cognitivos, designadamente a atenção, a concentração, o raciocínio e a resolução de problemas. Assim, o que acontece a maioria das vezes, quando optamos por não dormir para sermos produtivos, acontece exatamente o contrário… Para além disso, fazer esta opção várias vezes pode ser o primeiro passo para a existência de um distúrbio de sono, que terá implicações negativas na vida.

Apesar da sua incontestável importância, tendo em conta o ritmo da vida atual, o sono nem sempre é respeitado. O crescente número de atividades em que, desde cedo, estamos envolvidos, acabam muitas vezes por impor um padrão de sono irregular e insatisfatório. A prova disso é que, tal como vários estudos têm vindo a demonstrar, as crianças desde cedo apresentam problemas de sono, nomeadamente: resistência na hora de dormir, insónia inicial, sonolência ao acordar, ressonar, despertares noturnos, sonambulismo e sonolência diurna.   

Estima-se que uma em cada quatro pessoas experiencia problemas/distúrbios de sono. Estes podem ser decorrentes de estados emocionais negativos (como ansiedade e/ou depressão), mas também da falta de cuidado com as horas de descanso. Os distúrbios de sono mais comuns caracterizam-se essencialmente pela dificuldade em iniciar e manter o sono, despertar noturno, sonambulismo e pela sonolência diurna, que por sua vez estão associados com a diminuição da capacidade de concentração, baixa energia e a lentificação psicomotora. Com isto, fica claro que estes problemas de sono provocam consequências nocivas a nível físico e psíquico.

A Insónia é o distúrbio de sono mais comum em Portugal. Define-se como uma avaliação subjetiva do indivíduo em relação à sua qualidade do sono, mais especificamente, à sua dificuldade em adormecer, ao facto de acordar durante a noite, ou mais cedo do que o expectável. Esta perturbação, pode ser provocada por hábitos de vida pouco saudáveis, por problemas do foro psicológico, ou até mesmo pelo consumo de substâncias. Vários estudos concluíram que indivíduos com sintomas de insónia reportam uma maior irritabilidade, desequilíbrios nas funções cognitivas, ansiedade, depressão, cansaço e pior qualidade de vida. Para além disso, este a Insónia está associada a graves consequências, como distúrbios psiquiátricos, acidentes e absentismo laboral/escolar.

Atualmente há dados que suportam a ideia que a insónia é um fator de risco para o desenvolvimento da depressão e de estados de ansiedade, uma vez que a literatura é clara ao afirmar que esta perturbação de sono está associada com o aumento do risco de perturbação depressiva major, perturbação de pânico e abuso de álcool. Em suma, apesar de os problemas de sono terem tendência a ser desvalorizados e a serem vistos apenas como “uma noite mal dormida”, a realidade é que está claro na comunidade científica que indivíduos com distúrbios do sono estão em maior risco de desenvolver perturbações de humor e necessitam de acompanhamento. Não obstante, não podemos esquecer que se a insónia é um fator de risco para o aparecimento de outros problemas, nomeadamente quadros depressivos e/ou de ansiedade, o contrário também pode acontecer – os quadros depressivos e/ou ansiedade também são um fator de risco para a existência de distúrbios de sono, entre os quais a insónia. Portanto, se é importante pedires ajuda se sentes que estas com dificuldades a dormir, ou se sentes que o teu sono não é um sono de qualidade, é igualmente importante perceberes o que está na base desse problema, pois só assim o conseguirás ultrapassar!

Posto isto, ao contrário do que possas pensar em alguns momentos, dormir não é aborrecido e, muito menos, uma perda de tempo. Um sono de qualidade é essencial para que acordes no dia seguinte com as energias renovadas, para que sejas ativo e a tua atenção seja plena. Para além disso, aquilo que consideras “apenas algumas noites mal dormidas” podem ser sinais da existência de algum distúrbio de sono, que poderá vir a ter consequências muito negativas na tua vida, nomeadamente quadros depressivos e/ou de ansiedade, mas também problemas de memória e atenção. 

Departamento de Pedagogia e Formação – Filipa Mendes e Inês Freitas – 17 de Junho,2020

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