A Crónica do Enfermeiro Tiago - Um dia na vida de um Enfermeiro de Saúde Mental

Tiago Casaleiro
Enfermeiro Especialista em Saúde Mental - Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa

      Em Portugal existem 2081 (em 2019) Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica (Enfermeiros de Saúde Mental) que trabalham em diversos contextos, tanto no centro de saúde, como nos internamentos de psiquiatria em hospital como em muitos outros serviços.  O nosso objetivo é a promoção da saúde mental, o combate ao estigma assim como o cuidado a pessoas em processo de sofrimento, alteração ou perturbação mental. Conhece mais sobre esta profissão aqui.

      Eu sou um destes enfermeiros e trabalho no Serviço de Urgência, num departamento específico para Urgências de Psiquiatria. A este serviço recorrem pessoas pelos mais variados motivos, mas o principal é porque estão em crise e com dificuldade em lidar com as emoções e com as alterações do seu pensamento ou comportamento.

      Como seria de esperar num serviço de urgência, quando passamos a porta de entrada para um turno de doze horas não sabemos como vai ser o nosso dia. Sabemos apenas que vamos estar ali disponíveis para estabilizar as situações de crise. Trabalhamos numa equipa com vários profissionais (psiquiatras, enfermeiros, assistentes operacionais) em estreita articulação com outras especialidades médicas e com o serviço social, porque uma pessoa não se divide em partes e o sofrimento mental pode estar ligado a outros problemas de saúde e a dificuldades socio-económicas importantes.

 

      Após a consulta de psiquiatria, a pessoa pode ter vários destinos, pode ir para casa com uma proposta de terapêutica (medicação, consultas, estratégias não farmacológicas) ou então pode ser considerado necessário o internamento num serviço de psiquiatria para melhor acompanhar a pessoa no seu processo.

 

      Enquanto enfermeiro, acompanho os primeiros momentos desse processo de internamento, que passa por tranquilizar a pessoa e esclarecer as dúvidas existentes; avaliar o seu estado físico e mental para identificar riscos para si próprio e para outros; instituir medidas não farmacológicas na diminuição da ansiedade, agitação ou agressividade; administrar medicação explicando quais os efeitos e avaliando a sua eficácia; promover um espaço para descansar até ser transferido para o serviço de internamento. Estas intervenções dependem muito da pessoa que temos à frente, das suas características e necessidades, pelo que temos de estar sempre atentos à evolução da situação.

 

       Uma outra intervenção importante é o acompanhamento aos familiares ou cuidadores que muitas vezes estão em situação de sobrecarga emocional. Assim, realizo consulta de enfermagem para suporte emocional e psicoeducação. Estes momentos de crise afetam todo um sistema (família, amigos, colegas) e é importante apoiar quem pode estar no processo de recuperação.

 

      Nas Urgências de Psiquiatria passam muitas situações, umas mais intensas do que outras. No fundo, é uma porta aberta para as pessoas que precisam de ajuda. O meu trabalho enquanto enfermeiro de saúde mental torna-se exigente pela variedade e imprevisibilidade de situações que nos aparecem. Por outro lado, torna-se gratificante ao contribuir para o processo de recuperação de cada pessoa, independentemente do nível de sofrimento.

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