Da Infância à Adolescência

O desenvolvimento do ser humano é uma demanda de crescimento que não acontece só ao nível biológico/fisiológico como acontece, também, aos níveis psicológico e social/relacional. Este crescimento é condicionado pelas nossas vivências, experiências e histórias de vida.

“No início, a relação”. É aqui que começa a nossa história de desenvolvimento.

Desde a nossa vida intrauterina que há expetativas sobre nós. “Será que é menino ou será que é uma menina?”, “será parecida com a mãe ou com o pai?”, “será um desportista!”, “será uma artista!”, “será médica!”, “vai ser saudável!”, “não nos vai dar desgostos!” …

Depois das expetativas durante a gestação, vem o nascimento: confronto do bebé sonhado com o bebé real. Ou seja, as adaptações a um ser novo que se insere na realidade objetiva de uma dinâmica familiar específica.

O bebé já iniciou a sua jornada. Todos os meses da sua vida atinge certas milestones (marcos desenvolvimentais). E quando não atingem, é uma preocupação parental.

Mês a mês há alterações ao nível da linguagem, da cognição, da comunicação, da emoção, da motricidade e da resolução de problemas. O bebé que rapidamente se tornará criança, está a viver a sua infância.

Mas o que é a infância? A infância é uma das fases da vida de um ser humano. Um período que se compreende entre o nascimento e a adolescência, extraordinariamente dinâmico e rico, no qual o desenvolvimento ocorre, simultaneamente, em todos os domínios.

A infância distingue-se em três etapas: primeira infância (0-3 anos); segunda infância (3-6 anos); e terceira infância (6-12 anos). A primeira infância é um período crucial e determinante para o desenvolvimento cerebral do bebé/criança.

O nosso cérebro é construído. E é construído através das nossas experiências. Assim e desta forma, as experiências na primeira infância e a qualidade do ambiente (relações primárias com as figuras cuidadoras) têm um impacto profundo no desenvolvimento do cérebro, sistemas cerebrais e das redes neuronais influenciando o desenvolvimento a curto, mas, sobretudo, a longo prazo. É través da interiorização que o bebé/criança faz das boas experiências (que devem ser em maior quantidade que as experiências más) e do relacionamento familiar que ele se desenvolve de forma saudável e aprende a conhecer o mundo que o rodeia.

Caminhando pelas três fases da infância, a criança chega à fase da latência.

E o que é o período de latência? O período de latência é um período de “adormecimento”. O que “adormece” são os nossos instintos e pulsões. Este período termina quando começa a adolescência. A criança “adormecida” no período da latência, “acorda” com um beijo. O beijo da adolescência e da sexualidade. Agora, a criança tornou-se adolescente e enfrenta um período de profundas alterações que se inicia pelo surto pubertário (puberdade).

Segundo Kestember, “tudo se prepara na infância, mas tudo se joga na adolescência”.

A adolescência é a idade da dúvida e da especulação filosófica, da definição de uma identidade própria e de uma abertura da perspetiva pessoal. Na adolescência tudo pode ser perdido como pode ser ganho. Isto é fundamental no nosso desenvolvimento porque nos permite refazer processos, para os consolidar ou reestruturar. É uma nova fase onde, com novas capacidades, podemos refazer aquilo que ficou mal feito, existindo uma certa reestruturação identitária.

O adolescente ganha cada vez uma maior independência saudável dos pais, onde tem tempo para crescer e desenvolver a pessoa que é. Começa a ganhar uma identidade própria construída no seu narcisismo, autónoma e subjetiva às suas experiências. O objeto que na infância eram os cuidadores passam aqui a ser explorados no outro, com um forte investimento relacional. Esta “rotura” na relação primária é o que assegura a continuidade. Adolescer é crescer, assumir-se num nível pessoal e individual, é rumo à maturidade amorosa, à construção identitária e à autonomização.

Num nível psicodinâmico, a adolescência representa uma rotura com o período de latência e com o mundo da infância, começa a existir um equilíbrio defesa-pulsão com a imagem do corpo sexuado. O corpo aqui deixa de estar em silêncio e é a casa das inquietações e angústias do adolescente. É a forma privilegiada da expressão dos conflitos e dos modos relacionais, a valorização/desinvestimento, o real e o disfarçado do corpo passa a ser uma nova linguagem interpessoal. O adolescente recorre ao espelho do olhar dos outros para aprovação porque quer sentir-se desejado.

Somente com uma infância bem consolidada podemos desenvolver uma adolescência saudável com relações estáveis. Procuramos a semelhança naqueles que nos rodeiam e queremos desenvolvermo-nos e tornarmo-nos capazes. É uma fase transitória para a vida adulta onde nos questionamos sobre tudo e aprendemos a procurar as respostas por nós. É o espaço para a exploração individual, interpessoal, sexual e relacional. É a maturação cognitiva, intelectual e física fora da bolha familiar.

É através desta consolidação do desenvolvimento que nos tornamos seres adultos e capazes de enfrentar todas as adversidades e situações que nos apareçam. As mudanças físicas acompanham-nos uma vida inteira e são visíveis, mas são aquelas que são só nossas que nos fazem crescer.

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Maria Ana Coelho e Soraya Morais – 19 de Maio, 2020

Copyright © 2019 Pacifico. Developed by OvaTheme