Solidão em Tempos de Quarentena


Vivemos numa sociedade cada vez mais dinâmica e agitada, no qual várias mudanças ocorrem muito rapidamente, não nos possibilitando estar tão presente na vida dos outros. Mais que nunca, com a atual situação em que vivemos, é particularmente fácil sentirmo-nos sós. O distanciamento social e auto-isolamento a que nos vimos obrigados a submeter parecem ir contra o nosso sentido inato de socialização e contacto com o outro. No entanto, isolamento não tem de ser sinónimo de solidão.

A solidão é uma epidemia que os cientistas definem como “discrepância entre o nível desejado de conexão social e aquele que efetivamente se tem”. Relaciona-se assim com a qualidade dos nossos laços afetivos e não com o vivermos sós. Mas… e quando este viver só não é por escolha própria?

A solidão carateriza-se por um sentimento subjetivo e relaciona-se com a ausência de contacto, de sentimento de pertença ou com a sensação de se estar isolado, podendo o sentimento de solidão interferir com a qualidade de vida das pessoas. Aqui, uma pessoa sente que não pode contar com ninguém, que ninguém satisfaz as suas necessidades por mais simples que sejam, sente-se abandonado e só. Existem dois tipos de solidão, a social e a emocional. A primeira diz respeito aquando a pessoa sente que as suas relações sociais, com colegas ou amigos, estão aquém do seu desejo. A segunda, mais relacionada com relações íntimas, com um vínculo emocional próximo, a pessoa sente que não tem esta pertença. É importante perceber que estar sozinho não é estar só. Quando nos sentimos sós, por mais pessoas que nos rodeiem, é como se estivéssemos só nós connosco. Somos o nosso mundo.

Quer isto dizer que uma pessoa socialmente ativa, com amigos e interesses, não se sente só? Não! A solidão é um sentimento muito subjetivo a cada um de nós e pode coexistir com o contacto social. Torna-se assim um fator de risco para problemas de saúde, pela capacidade de resiliência do indivíduo em manter a sua vida social, apesar da sua vida interna se cingir à sua existência.

Uma distinção muito importante, especialmente nesta fase, é de um termo que ainda muito semelhante e confundido, representa um mundo individual diferente da solidão. Falamos aqui da Solitude. A Solitude representa o isolamento, voluntário ou imposto, mas não implica necessariamente solidão, ou o sofrimento que dela advém. Esta definição representa, teoricamente, o que estamos a viver. A solitude é vista por muitos como um período em que, ao distanciarmo-nos dos outros, conseguimos ir em busca de uma maior introspeção e auto-conhecimento, assim como liberdade e privacidade. No entanto, nas circunstâncias em que nos encontramos, pode ser difícil pensar nos possíveis benefícios que a quarentena nos traz, e de sentir algum tipo de liberdade, quando nos vemos tão presos.

A partir daqui pode-se desenvolver então uma maior sensação de solidão e sofrimento psicológico. Pessoas que anteriormente viviam sozinhas e estavam bem consigo, acabam por se ver impedidas de ver os seus mais queridos. A verdade é que não viviam sozinhas. Dormiam sozinhas. E na vida? Na vida tinham os seus que a preenchiam. Os que vivem acompanhados, também não estão totalmente livre de se sentirem sós; as rotinas, os hábitos, os costumes, tudo foi alterado de um momento para o outro, sem despedida, sem um até já. Estes que vivem juntos enfrentam novos desafios, a vida familiar e social conjunta passa agora a funcionar numa partilha 24 sobre 24 horas.

Assim é possível perceber que são muitos os impactos que o isolamento social pode trazer ao sentimento de estarmos sós. No entanto, há estratégias que, aos poucos, nos podem ajudar a combater estes sentimentos.

Em primeiro lugar, ainda que distante, é importante manter o contacto com amigos e familiares. O virtual não substitui vivências pessoais que têm um efeito no nosso corpo absolutamente crucial para o nosso desenvolvimento. No entanto, lutamos todos a mesma batalha, e continuarmos a falar com as pessoas de quem mais gostamos é uma das melhores maneiras de reduzir a solidão e ansiedade. Termos uma voz que nos aconchegue o ouvido é o abraço dos tempos que correm.

Em segundo, mantermo-nos ocupados ajuda-nos a fintar o tempo. Uma das vantagens da quarentena é dar-nos tempo que tanto nos falta sempre. Investir no que gostamos, começar aquele projeto que pomos sempre de lado para um “logo faço”, ou enraizar novas aprendizagens são pequenos passos que nos fazem ficar um dia mais perto do fim deste período. O trabalho/estudo deve estar detalhado na nossa rotina, mas é importante que não seja o único foco, apoderando-se de nós. Acima de tudo, devemos procurar em nós coisas que tenhamos gosto em fazer, começando por coisas pequenas, objetivos alcançáveis com esforço. Ver um filme, ouvir música, dançar, coisas que nos deem motivação e que tenhamos motivação para as fazer, sem nos sentirmos pressionados para ser extra produtivo. Desde palestras a exercício físico, existe neste momento uma panóplia de atividades que nos possam chamar à atenção.

Como já falámos, rotina, rotina, rotina. A rotina ajuda-nos a manter a cabeça no sítio. Não querendo isto dizer que tenhamos de ser robôs nos próximos tempos, mas separar o tempo de lazer do tempo de trabalho faz com que nos sintamos suportados e guiados. Pode ser mais fácil e até benéfico colocar por escrito este plano, para uma melhor organização e comprometimento na realização das tarefas.

Por fim, sair um pouco de casa. Ainda que estejamos de quarentena, são permitidos passeios higiénicos em locais pouco movimentados e com as devidas medidas de segurança. Se possível, dar um passeio pelo quarteirão, sentar à varanda ou janela e respirar um pouco de ar fresco, ou falar com os vizinhos.

Se te sentes sozinho ou a precisar de alguém com quem falar, não hesite em contactar os nossos Pineapple Friends (https://www.thepineapplemind.pt/thepineapplefriends/). Estamos aqui para o que for preciso e podemos ser o seu ombro amigo. Porque mesmo sozinhos, não precisamos de estar sós. Porque estar longe, não significa estar só.

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa e Maria Ana Coelho – 05 de Maio, 2020

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