Dependência da Comida

Vivemos numa realidade confinada a 4 paredes. Não há muito que fazer sem ser o mesmo todos os dias e, portanto, tornamo-nos criativos. Acendeu-se em nós uma veia que se calhar nem sabíamos que tínhamos, mas a verdade é que para o tempo passar temos de fazer algo para nos mantermos ocupados. Alguns tornaram-se uns verdadeiros pintores, outros aproveitaram este tempo para pôr os livros em dia, mas muitos de nós tornamo-nos chefes de cozinha. Desde pão a bolos, almoços variados a salgados, a cozinha é sem dúvida o sítio onde mais expandimos as nossas qualidades nos últimos meses. E é disto que queremos falar hoje, nesta que é a semana das dependências.

A alimentação é uma das mais básicas necessidades fisiológicas do ser humano, necessária para nos mantermos em atividade e para estarmos bem de saúde. No fundo, a comida dá-nos vida. Para a maioria dos animais a alimentação é simplesmente isto: abastecer o corpo. O humano aqui é uma exceção: atribui à comida um significado muito mais além da fisiologia. A comida é uma arte, os sabores, as cores, as texturas. É algo que nos sacia emocionalmente. Aqui, o desejo da comida vem quando a necessidade fisiológica está longe de estar presente. É neste sentido que surge o conceito de fome emocional, como uma forma de se referir à vontade de comer em função do estado emocional da pessoa, e não das suas necessidades fisiológicas.

Tendo em conta estes contextos diferentes, pergunta-se: será que, em situações particulares, comer pode ser considerado um vício? A resposta é SIM! A comida acaba por ser considerada uma compensação para as emoções negativas, como a tristeza e a ansiedade. Fazendo um paralelo com a situação pandémica atual, os níveis de stress, ansiedade, solidão e sentimentos de tristeza aumentaram em cada um de nós. As nossas rotinas foram abruptamente alteradas e é inevitável ficarmos apáticos ao que aconteceu, pelo que procuramos conforto no que está mais “à mão”. Ora, a comida está a uns passos de nós. A verdade é que esta satisfação emocional e esta necessidade de conforto estão diretamente relacionados com necessidades do nosso cérebro. É então importante abordar esta parte mais orgânica desta adição. Existem 3 neurotransmissores principais relacionados com o humor: a serotonina (responsável pela sensação de bem-estar, calmante), a dopamina e a noradrenalina (que proporcionam energia e boa disposição). Então e o que têm a ver neurotransmissores com comida? Está provado que certos nutrientes presentes em alguns alimentos estimulam a produção e a libertação destes neurotransmissores. A comida acaba por ser uma fonte de equilíbrio e regulação neuroquímica natural. O problema aqui centra-se no seu potencial aditivo.

Os termos mais comumente utilizados para se referir ao vício da comida são o binge eating ou a ingestão compulsiva, caraterizados por um comer excessivo e descontrolado de grandes quantidades e que, normalmente, só acaba quando nos sentimos fisicamente indispostos e já não conseguimos literalmente ingerir mais comida.

Claro que tudo o que falámos até agora, apesar de versátil, é focado numa realidade atual, não de uma perspetiva patológica, mas sim de uma necessidade focada no aqui e no agora, na ausência de ritmo e vida social. Mas, e nesta vertente patológica? A quarentena pode agravar qualquer quadro psicopatológico pré-existente ou potenciar alterações em pessoas que não tinham indícios de perturbações anteriores. Olhando então, mais especificamente, para o distúrbio alimentar, como já referimos, a comida é um mecanismo para lidar com o desconforto emocional. Não obstante, esta época, pode também ser uma fase de superação e resiliência para outros, que descobrem em si uma força e recursos que pensavam não ter.

Convém salientar que não podemos considerar uma pessoa viciada e/ou dependente da comida por esta tentar saciar o mal-estar psicológico na comida. Como já falámos, as causas do vício/dependência em comida estão relacionadas com mecanismos neurobiológicos, tal como acontece com outras dependências: determinadas substâncias viciantes, como é o caso de alimentos ricos em gordura e açúcar, produzem um efeito no cérebro que produz uma sensação artificial de prazer, o que significa que se consumirmos essas substâncias regularmente é muito provável que o nosso cérebro comece a precisar delas para nos transmitir a sensação de prazer, dando-se assim início à adição àquela substância. Uma vez que a adição alimentar ainda não é reconhecida nos manuais de diagnóstico, a literatura permite-nos afirmar que uma pessoa está viciada/dependente da comida quando:

     –  Come em grandes quantidades, de forma frequente

     –  Perde controlo sobre quando, com que frequência e onde come

     –  Come excessivamente rápido

     –  Come sem fome real

     –  Tenta parar o comportamento sem sucesso

Tanto nesta lente patológica como na normativa, estratégias como identificar, legitimar, expressar e partilhar o que se está a sentir são importantes para perceber o que está a causar em nós estes sentimentos de desamparo expressados nos comportamentos alimentares. Tentar redirecionar as emoções que sentimos pela comida para áreas que nos satisfaçam pessoalmente pode também ajudar, relaxar, meditar, desenhar, dançar. Libertar de nós o que não queremos que fique. Legitimar a base das nossas ansiedades e receios em vez de os oprimir e esconder no conforto que encontramos noutros sítios, neste caso, a comida.

Uma dependência nunca é uma coisa boa, achar que só está a acontecer porque estás numa fase difícil, pode trazer sérias consequências no futuro, nomeadamente a existência de distúrbios alimentares, bem como perturbações depressivas e/ou de ansiedade.  Posto isto, fica claro que não devemos subvalorizar comportamentos alimentares desajustados, que indiquem que, de alguma forma, podemos estar a ficar dependentes da comida, já que esta dependência poderá tornar-se prejudicial tanto a nível físico, como a nível psicológico. Assim, se sentes que estás frequentemente a comer em grandes quantidades, mesmo na ausência de fome real, se isso te faz ansioso/a e ou angustiado/a, mas mesmo assim não consegues parar: não hesites em procurar ajuda.

Departamento de Pedagogia e Formação – Filipa Mendes e Maria Ana Coelho – 02 de Maio, 2020

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