Dependência do Mundo Virtual

  • Os dias de hoje são fortemente marcados pelo uso da internet. Este é o fruto da modernização da nossa sociedade, bem como do avançar tecnológico. As estatísticas apontam que cerca de 39% da população mundial tem acesso à internet sendo que países mais desenvolvidos têm maior procura e, consequentemente, oferta de diversas formas de acesso à internet. A sociedade portuguesa também não escapa a esta realidade. Com o passar dos anos há um crescimento na percentagem de utilização de internet, tendo chegado em 2019 a 75,3%.
    O desenvolvimento que acompanhamos todos os dias, através do marketing e publicidade, traduz-se no aparecimento de novos gadjets a um ritmo desenfreado e a preços acessíveis (alguns!), para que a população possa ter, mais facilmente, acesso. Com o desenvolvimento do mundo virtual, assistimos a um movimento que tem vindo a revolucionar a forma como a sociedade vive as suas vidas. Como? Com a colocação de serviços online que “à distância de um click” resolve necessidades de imediato sem sair de casa, possibilitando um contacto próximo ao real, criando novas redes de conhecimento e informação acessível a todos, entre tantas outras vantagens.
    O problema é que cerca de 6% da população se torna dependente da internet e este valor só tem tendência a aumentar. A este fenómeno de dependência chamamos de adição tecnológica e onde há uma progressiva “troca” da realidade dita “normal” pela realidade virtual. Torna-se, então, fundamental, perceber e tornar compreensível o conceito de dependência. Dependência é um estado de necessidade, de uso excessivo e de longa exposição. É um estado onde a pessoa tem dificuldade em controlar o seu impulso (necessidade) de alguma coisa. E tem consequências em termos físicos e mentais.
    As redes sociais constituem um dos grandes subtipos deste fenómeno (que em semelhança a outras formas de adição/dependência se caracteriza, ou pode caracterizar, como uma perturbação do foro psiquiátrico/psicológico). Quando usadas com moderação, as redes sociais têm grandes impactos positivos nas nossas vidas, traduzindo-se numa facilidade em criar relações, comunicar, partilhar e diminuir a distância entre nós e o mundo. No entanto, quando usadas em excesso podem-se tornar num grave problema.
    A adição às redes sociais é um problema de saúde pública e do qual existem alguns sinais que nos permitem perceber quem é adito, tais como:
         ✓ o pensamento obsessivo em relação ao uso da tecnologia;
         ✓ a utilização compulsiva da tecnologia (p.e., verificação compulsiva de mensagens);
         ✓ uma sensação subjetiva de euforia e bem-estar ao utilizar a tecnologia;
         ✓ crescente desconforto e irritabilidade face à impossibilidade de utilizar a tecnologia;
         ✓ presença de diversos conflitos e problemas gerados pelo uso excessivo da tecnologia;
         ✓ impossibilidade de controlar o uso e cessar a utilização da tecnologia;
         ✓ perda de interesse em outra atividades e hobbies que não envolvam o uso da tecnologia.
    (de acordo com o Dr. Halley Pontes, especialista em Novas Tecnologias e Doutorado em Psicologia).
    Relativamente às consequências (mentais/psicológicas), é consistente na literatura encontrar
    evidências que nos dizem que tal como qualquer outro perfil aditivo, a pessoa adita às redes
    sociais pode sofrer alterações do esquema cerebral e neuronal, perturbações do sono,
    susceptibilidade a quadros depressivos e/ou ansiosos, problemas ao nível das relações
    interpessoais e humanas e permeabilidade a outras perturbações mentais.
    Mas então quais são os factores de risco? Quais são as vulnerabilidades?
    Existe investigação que aponta no sentido de que pessoas propensas ao desenvolvimento de
    adição à internet, e consequentemente às redes sociais, apresentam quadros anteriores
    relacionados com stress, ansiedade e depressão.
    Podemos também referir que a tendência à acessibilidade, os factores de recompensa e a
    exposição excessiva, o isolamento social e a solidão e, ainda, a identidade (auto-estima/auto-conceito)
    se constituem como factores de risco para além dos já enunciados.
    Por outro lado, este fenómeno reflete-se também nos jogos online. Sabe-se que jogar online
    pode ser uma forma de distração, uma atividade divertida e estimulante que pode ser
    experimentada sem se sair de casa. É apelativo. Temos um mundo completamente diferente
    do nosso à distância de um clique, onde podemos ser quem quisermos, e estar com pessoas de
    todo o mundo. Pode começar a tornar-se um problema quando a diversão se funde com a
    perda de controlo, tornando-se numa obsessão. A isto se chama adição aos jogos online.
    É uma perturbação muito complexa e a sua definição varia entre diferentes culturas e até
    mesmo estudos científicos, tornando difícil a sua compreensão completa. O DSM (Diagnostic
    and Statistical Manual of Mental Disorders) refere que uma característica essencial para a
    determinação da perturbação é “uma participação persistente e recorrente em jogos de
    computador, tipicamente durante 8 a 10 horas ou mais por dia e pelo menos 30 horas por
    semana”.
    No entanto, é importante diferenciar o que pode ser considerado uso excessivo de jogo de
    uma adição. Esta última subentende um conjunto de impactos negativos na vida da pessoa,
    como a exclusão de outros interesses, baixo rendimento escolar/laboral, baixa rede social
    (poucos amigos “reais”), não realização de tarefas ou atividade física, entre outros. Se um
    jovem passa muito tempo a jogar, mas tudo o resto na sua vida parece equilibrado, sem
    grandes falhas ou efeito adverso, não deve ser considerado uma adição.
    A adição mais comum é em jogos multiplayer online que podem ser jogados com qualquer
    pessoa do mundo, e que normalmente não têm um fim definido, o que acentua a adição. Uma
    das coisas que alicia os jogadores é o facto de poderem criar várias personagens e viverem
    uma realidade completamente diferente da sua.
    São muitos e variados os fatores que causam uma adição deste tipo. Os jogos são estímulos
    desafiantes e fazem com que as pessoas os queiram ganhar, mas nunca são demasiado difíceis
    que faça com que os jogadores desistam. São feitos para ser viciantes e usam padrões de
    reforço intermitentes e aleatórios, através de prémios ocasionais, de modo a maximizar o
    tempo que o jogador se mantém no jogo.
    Esta adição pode ter várias consequências emocionais, sociais e físicas, como o evitamento de
    estados de humor negativos e negligenciar relações ditas normais, tarefas escolares/laborais e
    até mesmo necessidades físicas básicas. Pode criar ciclos viciosos, como por exemplo, uma
    pessoa que tenha uma auto-estima baixa e poucas capacidades sociais e que desenvolve uma
    obsessão pelo jogo, tende a diminuir essas capacidades e a reforçar a adição.
    É importante estar atentos a possíveis sinais que vão aparecendo à medida que a adição se
    desenvolve e progride. Estes podem ser emocionais e físicos e referem-se a:
         ✓ Sentimentos de irritabilidade, inquietação, ansiedade, tristeza quando não podem
    jogar
         ✓ Preocupação com pensamentos de atividade online prévia ou antecipação de uma
    próxima sessão
         ✓ Mentir aos amigos/familiares em relação ao número de horas que passam a jogar
         ✓ Isolar-se dos outros de modo a poder jogar mais tempo
         ✓ Evitar outras atividades e perda de interesse por coisas que antes gostava, devido ao
    jogo.
         ✓ Cansaço/Enxaquecas devido à concentração ou intenso cansaço dos olhos
         ✓ Má higiene pessoal
    (De acordo com o DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders)
    O refúgio nas redes sociais e nos jogos online, que consequentemente alimenta a longa
    exposição aos mesmos, transmite uma falsa sensação de libertação dos problemas que se
    vivem. Ou seja, através da sua utilização sem moderação, a pessoa experiencia uma sensação
    de prazer, liberdade, de alívio e de nova realidade, semelhante ao uso/abuso de substâncias.
    Há, notoriamente, uma fuga à realidade, um adormecimento de sentimentos menos
    agradáveis. É uma auto-medicação que permite o isolamento, sem se estar isolado.
    Um aspeto particularmente importante, inerente aos perfis dos aditos às novas tecnologias e
    redes sociais, é a questão identitária. A possibilidade de emergência de “novos eus” possibilita
    também a emergência da agressividade e de atitudes/pensamentos menos convencionais. Isto
    é, as pessoas arranjam um novo self (um novo eu), e com uma sensação de maior liberdade e
    proteção (estar por trás de um ecrã), tendem a ter ações que não teriam no seu quotidiano.
    Este novo self (chamemos-lhe falso self – por não ser o verdadeiro eu da pessoa) protege-a de
    angústias e sentimentos que não são admissíveis à sua consciência, por a confrontarem com as
    suas fragilidades. E este falso self que se constrói só é visível no mundo virtual, não sendo,
    normalmente, exteriorizado nas relações interpessoais reais.
    Assim, torna-se notório que um outro problema fulcral nestes perfis são as relações
    interpessoais. Somos seres sociais, de relação com o outro, e essa é uma das premissas que
    garante a manutenção da nossa saúde mental. Este problema implica, portanto, uma
    substituição das relações reais por relações virtuais, onde se torna mais fácil desenvolver laços
    e sentirmo-nos aceites e parte de uma comunidade que nós próprios criamos/integramos.
    Tanto nas redes sociais como nos jogos online, há uma espécie de anonimato e de
    possibilidade de não-verdade. Não temos como garantir que a pessoa com quem se fala/joga é
    verdadeiramente quem diz ser (possibilidade de falsos selfs, não esquecer!). E isto, por si só já
    é um problema. O que pode ainda agravar isto é a hipótese de as relações estabelecidas serem
    altamente idealizadas e que aumentam as expectativas das pessoas envolvidas, mergulhando-as
    numa mentira e numa vivência plástica.
    O estado de emergência vigente no nosso país alterou profundamente o nosso dia-a-dia e as
    formas de nos relacionarmos uns com os outros e a Internet desempenha, mais que nunca, um
    papel crucial. Para além de ser uma maneira de combatermos diretamente a solidão sentida
    pelo distanciamento social, é também através dela que temos forma de nos aproximar
    afetivamente dos outros. No entanto, há que considerar a possibilidade da utilização de
    plataformas de redes sociais e a facilidade de acesso a jogos online, aliados ao grau de
    incerteza e receio que temos vindo a sentir pela população em geral, poderem aumentar,
    levando-nos a perder o controlo e a aumentar rapidamente os perfis de adição.
    Assim, salientamos a importância de haver hábitos saudáveis durante o confinamento.
    Controlar a exposição à internet é uma delas. Há que estar atento aos sinais e agir o mais
    rapidamente possível. Se necessário, não tenha medo em pedir ajuda.

Departamento de Pedagogia e Formação – Inês Costa, Soraya Morais – 28 de Abril, 2020

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