Bullying e cyberbullying - a visão da Psicologia

“A violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano.”- João Paulo II.

O Ser Humano é um ser de dualidade. E o que é isto de ser dual? Bom, quer dizer que a condição humana encerra em si contradições fundamentais, portanto, os dois lados da mesma moeda. Desta forma, existem em nós forças de destruição – construção e de amor – ódio e todas elas importantíssimas para o nosso desenvolvimento.A violência é um dos conceitos que carece de uma maior compreensibilidade devidoà sua enorme complexidade. Falemos de bullying. Este é um dos fenómenos originado na violência. Mais precisamente, no acto de violência traduzido na expressão de agressividade sobre o Outro (igual a si), intencional e repetitivo.Podemos identificar cerca de 9 tipos de bullying/violência na infância/adolescência, que diferem no modo como são praticados, distinguindo-se o bullying físico, verbal, material, psicológico, social, moral, preconceituoso, cyberbullying e sexual. A forma mais tradicional é o bullying físico – que ocorre quando as crianças/adolescentes usam ações físicas como uma forma de ganhar poder e controlo sobre os outros, como por exemplo, através de pontapés, socos, empurrões, chapadas, puxões de cabelos, entre outros. Os bullies (agressores) tendem a ser maiores e mais fortes do que as suas vítimas e usam essas mesmas características para sua própria vantagem.Relativamente ao bullying verbal, os bullies recorrem a palavras, afirmações e insultos como forma de magoar, menosprezar e humilhar o outro. É habitual que os alvos deste tipo de bullying sejam crianças/adolescentes com necessidades especiais. Já o bullying material tem por base a destruição ou furto dos bens pessoais da vítima, sendo que a agressividade é dirigida para objetos e não para a pessoa. Contudo, por vezes, a destruição dos bens pode ser seguida de ameaças ou intimidações (bullying verbal).O bullying psicológico tem por base a chantagem ou a ameaça, o que faz com que a que a vítima pratique certas acções de acordo com os interesses do bullie. Este tipo de bullying é caracterizado pelo medo ou necessidade de aceitação.Uma das formas de bullying que passa despercebido aos pais e professores é o bullying social, uma vez que assume uma forma de manipulação social com a finalidade de alienar um indivíduo do grupo de pares. Ou seja, no bullying social os bullies, geralmente, isolam um indivíduo dos restantes grupos espalhando rumores e boatos, manipulando situações e quebra de confidências como forma de engrandecer a sua própria posição social (pelo controlo e intimidação da outra pessoa).O bullying preconceituoso, como o próprio nome diz, baseia-se em preconceitos que crianças e adolescentes têm relativamente a pessoas de diferentes raças, religiões ou orientação sexual. Esta forma de bullying pode abranger todos os outros tipos de bullying. Aqui podemos salientar os insultos, alcunhas insultuosas e intolerância com o Outro.No bullying moral a vítima é exposta a humilhações que envolvem questões morais, sendo que, geralmente, sofre com calúnias ou difamações que atentam contra os seus princípios e valores (modo de vida ou grupo social).O cyberbullying, caracteriza-se pelo assédio e ameaças a outra pessoa com recurso à internet, smartphone ou outra tecnologia. Muitas vezes este meio é utilizado por bullies que não têm a coragem de confrontar a vítima cara-a-cara ou diretamente, pelo que muitas vezes recorrem ao anonimato. Podemos salientar como exemplos de cyberbullying o postar de imagens prejudiciais, ameaças online ou até mesmo o envio de emails ou mensagens dolorosas. Por último, o bullying sexual. Esta forma de bullying consiste em ações repetitivas, prejudiciais e humilhantes, que têm um caráter sexual associado.
Podemos destacar como exemplos, o chamar nomes de cariz sexual, fazer comentários rudes e grosseiros, gestos vulgares, toques indesejados, propostas sexuais e exibir materiais pornográficos, onde o sexting pode ser um fator de risco para este tipo de bullying devido à exposição associada. É importante referir que em casos extremos, o bullying sexual pode levar à agressão sexual, sendo as raparigas vítimas predominantes neste tipo de bullying. Os pais e cuidadores têm o dever e a responsabilidade de estarem presentes para ajudar os seus filhos a ultrapassarem as fases da infância e da adolescência. É difícil lidar com situações como o bullying. Admitir que se é uma vítima e falar do que se está a passar exige um grande esforço da própria criança/adolescente, pois mostrar-se vulnerável e pedir ajuda é um feito enorme para quem se sente tão pequeno e tão sozinho. Conversar abertamente com os filhos e garantir que estes têm conhecimentos sobre o bullying, sobre como proceder e sobre como intervir pode fazer toda a diferença. A informação é uma arma que deve ser partilhada com todos e faz bem a todos.Na eventualidade de uma criança/adolescente nos contar que sofre de bullying, é extremamente importante perceber que esse ato advém de uma coragem incrível e de um ato de confiança enorme. É, então, necessário ouvi-la, não menosprezar os seus sentimentos ou desvalorizar a situação. A criança/adolescente tem de perceber que não está sozinha a enfrentar o que se passa e que nós estamos do seu lado para a ajudar e, principalmente, entender que a culpa não é dela. Valorizar o seu comportamento e encorajar a conversa são pequenos passos a dar!É, então, fundamental construir uma relação de confiança e segurança! Pequenas atividades que fomentem a interação social, que deixem as crianças/adolescentes à vontade para nos fazerem perguntas e terem curiosidades, ensinar formas pacífica sde resolver problemas sem recorrer à violência, seja física, verbal ou psicológica. Promover a autonomia saudável num espaço tranquilo e calmo. A prevenção exige uma identificação dos problemas que lhes estão adjacentes e uma compreensão acerca da complexidade dos mesmos.Os problemas não aparecem isoladamente, desenvolvem-se numa cadeia que se torna cada vez maior e mais difícil de combater. O estigma social e a cada vez menor interação pessoal fazem com que o bullying se torne cada vez “mais fácil”. A despreocupação com os outros e o desinteresse social propiciam estes atos, facilitados atualmente pelas redes sociais. Estamos todos tão perto, mas cada vez mais afastados uns dos outros.Temos, então, de reconhecer a existência do bullying e chamar-lhe pelo seu nome. O que para um é uma piadinha aqui e outra ali, para o outro é mais uma carga emocional sobre todas as outras que já carrega.Então, sabendo nós que os problemas se desenvolvem em cadeia e que, independentemente da forma como o bullying é exercido sobre o Outro, há algo que é transversal e comum: a violência intencional e recorrente.A exposição à violência em períodos tão críticos como a infância e a adolescência, onde a identidade da pessoa ainda não está formada – mas sim em formação – pode ter consequências até e durante a vida adulta.Edificar a nossa personalidade numa base violenta e de violência vai afetar a forma como vemos e nos relacionamos com o mundo. Mas como? Pelo trauma que fica registado em nós. E porquê? Porque o trauma resulta da experiência que vivemos. Ele é o resultado da incapacidade de dar uma resposta adequada ao que se viveu.O trauma pode condicionar a nossa forma de estar e ser no mundo que nos rodeia e, pode, inclusive, condicionar o aparecimento de psicopatologia. Ao ficar marcado em nós, o trauma vai ser sentido, similarmente, como um abandono ou desamparo. E este sentimento é, ou pode ser reativado por diversas situações da vida adulta como por exemplo, problemas com a “chefia”. É como se o trauma, originado pela experiência de bullying, retornasse sob uma nova forma. E vejam que, se compararmos esta situação com uma experiência de bullying vivida
no passado, vemos a questão da assimetria do poder – o mais forte (bullie-chefe) e o mais fraco que é subjugado (vítima-empregado). Uma experiência destas pode reativar o trauma e, consequentemente, reativar o sofrimento psicológico e levar, uma vez mais, a pessoa a sentir-se vulnerável e incapaz de tolerar/processar adequadamente o que se está a pensar/sentir. É um voltar a ser a criança ou o jovem violentado.Outra consequência dos efeitos da violência e agressão, como já referimos é, também, a possibilidade de surgimento de quadros psicopatológicos tais como a ansiedade patológica (diferente da ansiedade normal que nos protege e adapta à realidade), a depressão (com ideação suicida ou não) e quadros que têm na sua génese a falta de autoestima. Estes quadros podem levar a pessoa a procurar ajuda profissional especializada – psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras. Assim, o adulto que chega a consultório traz consigo a criança/adolescente que outrora foi e o seu sofrimento.Aqui, achamos importante salientar o papel fundamental da intervenção profissional especializada quer nas crianças/adolescentes vítimas (e também agressores) e nos adultos que outrora foram vítimas.No que toca à relação de ajuda com o adulto, o profissional tem o papel de, conjuntamente com a pessoa, resgatar o trauma e ajudar a que este se torne compreensível. Depois, com o desenvolver do processo terapêutico fazer com que a pessoa arranje mecanismos adaptados de proteção contra situações potencialmente traumatizantes.Por fim, queremos também chamar a atenção para o facto de que a violência e, em particular o bullying, é um problema que tem impacto nas esferas individual e social, fazendo dele um problema de todos nós. Por isso, temos a obrigação e o dever de o trazer “à praça pública” e deixar a mensagem de que a violência não se combate com a violência e ela tem de ser trazida à luz, ou seja, ser denunciada e tornada compreensível, de modo a que todos possamos intervir de forma adequada e, com isso , prevenir.

 

Departamento de Pedagogia e Formação – Maria Ana Coelho, Neuza Noronha, Soraya Morais – 17 de Abril, 2020

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